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domingo, 19 de julho de 2009

E se eu te contasse o meu segredo?

Este é o título da coreografia que a Cia. Jovem da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil mostrou na Mostra Contemporânea de Dança, neste 27. Festival de Dança de Joinville.

Trata-se de uma bela coreografia de Clébio Oliveira, construída na forma de fuga, com repetições que funcionam como ecos ou rimas internas.

Um motivo proposto por um duo inicial vai se reproduzindo depois, em variações diversas, em solos e grupos, por quase todos os momentos da coreografia, até explodir numa espécie de gran finale, num tutti, quase um número de chorus line, uma celebração coletiva do movimento.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Como se chamará a dança contemporânea quando ela já for extemporânea?

O grande circo mística - Foto de Tom Lisboa.

Começou ontem (17/07/2008, 20h), a Mostra de Dança Contemporânea do XXVI Festival de Dança de Joinville. O público mediano que o Teatro Juarez Machado recebeu deixa evidente que isto que o festival joinvilense define como "dança contemporânea" não atrai muita gente. Sobretudo, não atrai a maior parte de bailarinos e bailarinas presentes no evento. (Estes são apaixonados por coisas mais nitidamente recortadas: clássico, jazz, folclore, sapateado, dança de rua. Ponto final.)

Agora, dança contemporânea - o que é isto? Arrisco aqui uma opinião que, embora não seja de um estudioso da dança, também não nasce de puro e simples achismo, mas de toda uma experiência como espectador que gosta de pensar sobre o que vê na cena e das minhas leituras e conversas sobre esta maravilhosa e inesgotável manifestação artística e cultural.

Podemos entender dança contemporânea1 como:

  1. um conjunto de novas técnicas que, aos poucos, vêm também se consolidando em torno de linhas (Cuningham, Graham, Limón-Hamphey-Weidman, Laban, Alexander) que combinam elementos tais como alinhamento, centramento, contração, equilíbrio/desequilíbrio, conflito/emoção, gravidade, liberação, queda, recuperação, tensão/relaxamento, respiração, suspensão etc. - cada termo destes com suas variantes em conceito e tradução;
  2. o conjunto das obras criadas na atualidade com base na combinação das diferentes atitudes do nosso tempo em relação à expressão estética com o patrimônio acumulado dos vocabulários da dança - tanto dos novos, nascidos da aplicação das ditas técnicas contemporâneas, quanto do clássico, que, por oposição a esses "novos", imaginamos congelado no tempo, mas não: trata-se apenas, na minha visão de leigo, de uma espécie de "reserva de mercado" do meio profissional do balé tradicional, que pretende entender que o acervo de passos, posições e soluçõs coreográficas da dança clássica não podem mais sofrer transformações e nem devem variar jamais.

Qualquer que seja o viés por onde se queira enquadrar a dança contemporânea, sempre surgirão dificuldades para classificar (e/ou qualificar) os espetáculos criados no tempo presente - o que, me parece, é problema dos especialistas. Para nós, o público, os fruidores de dança em geral, a questão está na atitude com que nos colocamos diante do espetáculo, pois dessa atitude depende o maior ou menor proveito que poderemos ter da obra.

Hoje, vimos Luís Arrieta, que abriu a Mostra com seu Carnaval dos animais (música de Saint-Saëns). Depois, o Riscas mostrou o seu Escape. Bonitos ambos. Gosto mais do que propõe Arrieta, porque o trabalho do Riscas ainda está, do meu ponto de vista, em construção: tem coisa ali acontecendo apenas para dar tempo à duração da música, isto é: a coreografia, em alguns momentos, é apenas um esboço.

Mas, mesmo Arrieta, aqui, está colocado como que para legitimar a tendência redutiva em relação à contemporaneidade da dança que sinto no festival de Joinville (evidente já no fato de colocar, na mostra competitiva, a modalidade de dança contemporânea nas mesmas noites da dança de rua, quando se sabe que os públicos atraídos por estas formas são quase total e absolutamente diversos). Por que a mostra de dança contemporânea não pode abrir com um grande bailado contemporâneo do nível de O Grande Circo Místico2? Por que, enquanto o festival abre com um bailado completo do repertório clássico (O lago dos cisnes, do Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro) e tem ainda uma noite de gala com outro ballet completo do nosso Bolshoi (Dom Quixote), a mostra contemporânea tem de abrir com um solo e um espetáculo que requerem uma leitura de público mais habitué? Por que isto é próprio do contemporâneo? Não: é porque a organização parte de um pressuposto nascido do senso comum de que "o público não gosta de contemporâneo, então não vale a pena investir muito no contemporâneo".

Seremos, nesta mostra paralela, um público privilegiado? O contemporâneo está aberto a todos os conceitos e tende a tocar mais profundamente os espectadores abertos para os horrores e as maravilhas de sua própria época (estes turbulentos inícios do século XXI) - o que não quer dizer que deva justificar a posta em cena de laboratórios, exercícios preparatórios ou pirações terapêuticas particulares.

Penso que, em termos de dança, a atitude do espectador deva ser semelhante àquela com que encaramos a música contemporânea: embora sempre aberta à experimentação e à exploração de novas possibilidades, é preciso que a música seja música, isto é, que seja construída por meio da linguagem da música - não aquela das clássicas cadências V-I, IV-I etc., mas, através de novas soluções sonoras e novas resoluções harmônicas que dêem origem a um discurso musical intencional, coerente com uma gramática legível para o ouvinte ou o espectador.

Um dia, talvez, por insistência de coreógrafos e bailarinos que sonham com a possibilidade de combinar na cena os diversos idiomas que a dança explorou e construiu ao longo de sua história (articulados inclusive com os dialetos locais, como já estamos vendo acontecer no Bolshoi de Joinville), a Mostra de Dança Contemporânea do maior festival de dança do mundo ganhe o status que toda arte contemporânea merece: ela é criação de gente viva voltada para a sensibilidade do nosso tempo. ___________________________

(1) O respeito que tenho pela história não me permite admitir a designação impensada de "pós-contemporâneo", como há quem queira chamar as formas ainda mais recentes da dança. Pós-contemporâneo é uma idéia absurda e irresponsável.

(2) A remontagem de O Grande Circo Místico, do Ballet Guaíra, com coreografia de Luis Arrieta, apresentou-se em Joinville no festival de 2003.