domingo, 19 de fevereiro de 2012

De Umberto Eco

Certa vez, Valentino Bompiani inventou como slogan editorial: "Um homem que lê vale por dois." Na verdade, vale por mil. É através da memória vegetal do livro que podemos recordar, junto com nossas brincadeiras de infância, também as de Proust, e entre nossos sonhos da adolescência os de Jim em busca da Ilha do Tesouro; extraímos lições não só dos nossos erros, mas também dos de Pinóquio, ou dos de Aníbal em Cápua; não suspiramos somente pelos nossos amores, mas também pelos da Angélica de Ariosto — ou, se formos mais modestos, pelos da Angélica dos Golon; assimilamos algo da sabedoria de Sólon, sentimos calafrios por certas noites de vento em Santa Helena, e nos repetimos, junto com a fábula que a vovó nos contou, aquela narrada por Sherazade.
(A memória vegetal e outros escritos sobre bibliofilia.
Rio, Record, 2010, p. 16.)

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Sobre "Cavalo de guerra".

Decepcionado após ver, ontem, "Cavalo de guerra". Minhas impressões aqui são apressadas e superficiais - a imagem geral que me restou da obra.

O filme já nasceu prontinho para a Sessão da Tarde - nem precisa envelhecer. E faltou açúcar na lata do Spielberg: com uma narrativa mais que melíflua, com personagens esquemáticos, sem consistência dramática, o diretor parece conter-se (por tédio de veterano?) em quase todos os aspectos que poderiam tornar o filme memorável. Os primeiros minutos até que se desenham como uma promessa... mas ficam nisto. No final, tudo assume uma coerência danada: heróis involuntários, animais que parecem gente, campos de guerra com jeito de parques de paintball, personagens alemães e franceses falando inglês (umas vezes com um sotaque inexplicável, mesmo no caso de Emilie, que é francesa)... tudo pontuado pela música de John Williams (enternecedora e empolgante, é claro), que lembra os grandes épicos de Enio Morricone e do próprio JW, contra uma paisagem estonteantemente linda, às vezes de tirar o fôlego. (Queria poder filmar com esse diretor de fotografia - Janusz Kaminski!)

Acho que a cena mais interessante - e que pode tornar-se antológica (justamente porque a sequencia é temperada com uma agradável dose de ironia) - é a fuga de Joey na madrugada e seu salvamento quando acaba na terra-de-ninguém.

Enfim, à guisa de arremate: quem quiser curtir o filme deve ir vê-lo sem expectativas. Acho que procurei nele mais do que tinha pra me dar; pensava em algo bonito, aventuroso e sério, como alguns outros do diretor... mas, não é o caso de "Cavalo de guerra" - é um Spielberg, sim, mas bem mediano e mesmo assim vai lavar nas bilheterias do mundo. Próprio da grande indústria.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Granizo em Joinville

Acabei de assistir a uma chuva de pedra – o que me trouxe a infância de volta. Ficamos ali, no limiar do boteco, impotentes, contemplando as pelotinhas brancas a atacar as latarias dos nossos carros. Não fotografei porque esqueci.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

ASSASSINARAM LAIKA LITE

A chegar em casa, esta tarde, encontrei nossa cadelinha estrebuchando, tremendo e já toda entrevada.

Corri com ela imediatamente para o veterinário - Foi chumbinho, ele disse, enquanto ministrava à cadelinha os medicamentos de praxe.

Há pouco, ele me notificou a morte dela.

Temos por aqui um morador absurdo. Ninguém sabe quem é. Já perdemos dois gatos; os vizinhos da frente quase perderam seu cachorrinho. Meu irmão, que morava ao lado, teve também um cachorro envenenado.

Dá vontade de sair à caça do filho-da-puta, mas a tristeza não deixa: um animal assim como esse vizinho imbecil talvez não mereça tanta atenção: um dia, de tanto lhe querermos mal, ele haverá de ir também, estrebuchante e sozinho, meter-se na sua cova.

sábado, 12 de novembro de 2011

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Horta Comunitária Girassol

Não poderia deixar de participar do lançamento oficial da horta comunitária localizada nas imediações da minha casa. Com o tempo livre reduzido e a impossibilidade de cuidar sistematicamente da minha própria horta, vinha pensado numa alternava. Ela já existia e era um programa do governo federal chamado Hortas Urbanas. 

Em Joinville são quatro, já. A do Jardim Iririú – a Horta Comunitária Girassol – vem produzindo hortaliças e legumes não-envenenados há alguns meses. E eu não sabia!

Ontem, o prefeito Carlito Merss fez a entrega oficial do terreno público onde funciona a horta, que é tocada por voluntários e atende famílias carentes cadastradas. Quem trabalha na horta pode usufruir também de seus produtos. O excedente é, vendido para a comunidade por preços convidativos.

E quem disse que eu conseguiria?

Só pensei que conseguiria manter regularidade nos relatos de nossa viagem pelo Norte-Nordeste. Embora tenha escrito, sim, longos relatos acerca da viagem, eles ficaram lá no meu caderno, manuscritos nos aviões, nos bares, nos hotéis... Mas quem disse que tive ou tenho paciência para digitá-los agora? Então, que fiquem lá até que esta paciência pinte.

Enquanto isto, aqui no BGlog, vou tentando retomar meus balbucios esporádicos.

domingo, 18 de setembro de 2011

Manhã em Manaus.

Chegamos a Manaus ontem à tarde, depois de uma tranquila viagem de Gol. Do avião, sempre em meio a uma poderosa nuvem de névoa seca (fumaça das queimadas), pudemos ver de longe coisas mais ou menos conhecidas por meio de referências, mas sempre distantes: as grandes represas (reconheci a Represa de Privamera, assentamentos, as infindas retas das estradas, partes das chapadas, os pedacinhos que sobram do cerrado, os campos do Mato Grosso do Sul, e Campo Grande e Cuiabá (onde paramos), além da eterna colcha de retalhos dos campos cultivados (praticamente nada mais resta sem intervenção humana até bem depois de sairmos de Porto Velho, cruzando o rio Madeira e sobrevoando a(s) BR(s) 174(319), que atravessa o verdejume quase negro da floresta. A maior emoção foi ver ao longe o Solimões que se aproximava e quase não cabia nos olhos de tão grande. Mas, nada como ver, logo depois, a enormidade do rio Negro!

Primeiro ritual para marcar a chegada em Manaus: jantar pirarucu grelhado na frente do Teatro Amazonas e, depois, ir ao Teatro para ver a terceira apresentação gratuita para a cidade da produção recente da Orquestra de Violões de Manaus, acompanhada do Coral e do Ballet Experimental do Teatro Amazonas.

O espetáculo é bem singelo, mas bonito. Para mim, um momento fascinante: sentar-me diante do palco onde Fitzcarraldo pôde assistir à última cena de Lucia de Lamermoor (se bem lembro), após convencer o porteiro (interpretado por Milton Nascimento) a deixá-lo entrar atrasado no TA. Mais marcante por se tratar de um espetáculo com música produzida em Manaus e falando da Amazônia!

Agora, da sacada do hotel, ouvindo um sambinha executado por um senhor baiano-carioca de muito boas maneiras (encarnação de Caymi misturado com Vinicius de Moraes), contemplo ao longe o encontro nascimento do Amazonas a partir do encontro Solimões com o Negro. 40 graus. Sol a pino. Cá estou, portanto, no meu destino. Por quatro dias.

sábado, 17 de setembro de 2011

RUMO AO SOL A PINO: incursão para além do Paralelo -5.

Os apontamentos a seguir servirão apenas para compartilhar uns rápidos registros rápidos de minha primeira viagem para perto do equador brasileiro: Manaus, Santarém, Belém e Natal.. Depois, com alma e calma, distilarei os efeitos que, já sei, serão duradouros, deste contato com o Brasil que sempre soube existir... mas que continuava a ser, para mim, quase puramente mitológico.

sábado, 13 de agosto de 2011

Cena 8

Começou ontem a 8a. Mostra de Teatro de Joinville. Confira programação em http://www.teatroemjoinville.com.br/.

domingo, 17 de julho de 2011

terça-feira, 31 de maio de 2011

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Debate em debate

Carta aberta de Charles Narloch / Fundação Cultural de Joinville em resposta ao texto de Eduardo Baumann, publicado no altjoinville, em 12/05/2011.

As críticas apontadas na carta aberta do performer Eduardo Baumann, à organização dos fóruns setoriais de cultura em Joinville - que iniciam neste final de semana - levantam questões que preocupam a Fundação Cultural de Joinville. Toda a metodologia, datas e forma de convocação da sociedade civil, têm a participação direta dos integrantes do Conselho Municipal de Política Cultural - CMPC-Jlle. Os representantes dos segmentos contemplados no CMPC-Jlle foram eleitos democraticamente na última edição da Conferência Municipal de Cultura, em 2009, que contou com a participação de aproximadamente 600 pessoas.

Tais segmentos, hoje representados no Conselho, refletem exatamente as deliberações da Sessão Plenária desta mesma Conferência. Portanto, não são arbitrárias as definições de contemplar nos fóruns alguns segmentos em detrimento de outros, como sugere o performer, que participou ativamente de todas as fases de construção do atual modelo de gestão participativa e foi um dos principais articuladores da primeira edição da Conferência Municipal de Cultura, em 2007.

O Sistema Municipal de Cultura, do qual são partes constituintes o Conselho Municipal de Política Cultural, os Fóruns Setoriais e a Conferência Municipal de Cultura, dentre outras instâncias participativas de pactuação de políticas públicas de cultura com a sociedade civil, é uma realidade em Joinville. Seu modelo foi aprovado como a principal deliberação da última Conferência e, justamente por isso, quando foi encaminhado como projeto de lei à Câmara de Vereadores, foi aprovado por unanimidade naquela casa (Lei no 6.705, de 11 de junho de 2010). A existência destas instâncias não é prerrogativa de um Governo, mas se consolida como política de Estado, já que se configura como marco legal amplamente debatido. São raros os municípios do Brasil que já possuem estas instâncias garantidas por lei.

Quanto às reuniões dos Fóruns, todas as datas foram definidas pelos representantes eleitos da sociedade civil (e não por membros do Governo Municipal, como sugere o texto), após inúmeras consultas e encaminhamento de questionário/diagnóstico, por email, desde o mês de abril. A duração das plenárias (também questionada na carta) foi definida em consulta aos membros da sociedade civil que atuam no CMPC-Jlle.

Quanto à divulgação dos Fóruns, a Fundação Cultural de Joinville reconhece suas dificuldades momentâneas, especialmente quanto à ausência de seu site principal, atualmente em reformulação e previsto para ficar novamente online até o final deste mês. Entretanto, todas as informações do CMPC-Jlle, Fóruns e Conferências, continuaram neste período sendo divulgadas normalmente, por meio dos blogs do Conselho (www.cmpc-jlle.blogspot.com), da Conferência Municipal (www.conferenciadeculturadejoinville.blogspot.com) e do SIMDEC (www.blogdosimdec.blogspot.com), e por emails encaminhados pelos representantes da sociedade civil nesse Conselho.

Os Fóruns Setoriais, que durante este mês serão reunidos pela primeira vez após a aprovação da lei do Sistema Municipal de Cultura, terão papel fundamental na elaboração dos diagnósticos setorizados e na priorização das ações, definidas exclusivamente pela Sessão Plenária da Conferência Municipal de Cultura (disponíveis desde 2009 no blog da Conferência). São estas metas, diagnósticos, e ações – pactuadas por deliberação da sociedade civil – que constituirão a base do Plano Municipal de Cultura de Joinville, previsto para os próximos dez anos. Tal Plano, como prevê a legislação vigente, também será submetido à Câmara de Vereadores, para que se consolide como marco legal.

A Fundação Cultural de Joinville estimula o debate e reconhece a importância do performer Eduardo Baumann como partícipe da construção das políticas culturais hoje praticadas em Joinville. E espera, com esta manifestação pública, ter esclarecido alguns questionamentos. Por fim, manifesta sua total concordância com alguns pontos da carta aberta, especialmente em sua finalização, que tomamos a liberdade de transcrever por considerar absolutamente pertinente:

"Cabe a todos os envolvidos no processo da cultura - criadores, produtores, receptores - assumir sua efetiva condição de agentes da política no setor e chamar para si a organização desse debate acerca do que queremos para o segmento em nossa cidade" (Eduardo Baumann, em carta aberta de 12/5/2011).

Joinville, 12 de maio de 2011.

Charles Narloch
Diretor Executivo
Fundação Cultural de Joinville

segunda-feira, 9 de maio de 2011

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Caríssimo Leonardo

Borges de Garuva
Publicado em A Notícia, em 8/04/2011.

Sou admirador das tuas ideias, compartilho tuas preocupações e me inspiro nos teus escritos ao decidir sobre minhas atitudes de cuidado e respeito para com nosso planeta.

Ouvi tua fala na 8a. Feira do Livro de Joinville, surpreso com as 2.000 pessoas e o respeito de adolescentes, jovens e adultos em relação às tuas palavras. A presença de estudantes, professores e outros trabalhadores, artistas, empresários, funcionários do governo e vereadores revela também o alcance social das tuas ideias.

Fascinam-me a clareza com que te diriges às pessoas e a agudeza com que denuncias aspectos predatórios do nosso modo de vida. Da mesma forma, valorizo o fato de termos um representante nosso a interferir nos fóruns em âmbito nacional e planetário – sobretudo porque podemos confiar nas tuas posturas e na pertinência da tua indignação e do teu aconselhamento.

Reconheço a força dos princípios ou valores de mudança que propões para desenvolvermos uma nova consciência e novas práticas visando legar para o futuro uma Terra habitável.

Entretanto, mesmo podendo parecer pretensioso, gostaria de deixar aqui uma contribuição em relação ao sétimo princípio.

O avanço civilizatório do ecumenismo possibilitou, nas últimas décadas, a inclusão mútua de uma ampla diversidade de abordagens da fé — e percebo, quando escolhes o termo "espiritualidade" como o sétimo valor a ser cultivado para a construção desse mundo melhor, que te referes a esse avanço congregador das sociedades.

Porém, por sua configuração histórica, a espiritualidade — definida principalmente como busca pela transcendência ou como cultivo dos valores metafísicos — exclui uma parcela significativa da população da Terra, algo em torno de um bilhão de indivíduos que não são adeptos de nenhuma crença: os que se definem e/ou são não-religiosos, os agnósticos, os que cultivam práticas ancestrais mas não religiosas de relação com a natureza e também os ateus.

Sugiro, então, que como sétimo princípio seja adotada a cultura da contemplação (lembro Alcione Araújo, teu parceiro no livro de Emir Sader, "Os sete pecados do capital"), capaz de incluir tanto a espiritualidade dos crentes quanto aquele encantamento cósmico dos descreventes, que, ao longo da história, tem produzido — bem longe dos altares — contribuições respeitabilíssimas para o conhecimento e a preservação da Mãe Terra e sua maravilhosa diversidade, nascidas de um materialíssimo amor darwiniano pela natureza.

domingo, 17 de abril de 2011

Diogo Nogueira

Foto de Borges de Garuva, 15/04/2011.

Cantou pra mim! Show na Festilha, 15/04/2011.