Finisterra
(Borges de Garuva, 2013)
Enfim,
Rabiscos e olhares, na frequencia e na medida do possível, ao meu tempo e ao contexto em que vivo.
A formiguinha
Borges de Garuva
É a percepção da morte que nos vai tornando absolutos. Cada dia que passa é um passo a mais para a plenitude, se por plenitude considerarmos a dispersão final, no Reino Anárquico da Natureza, disto que agora somos. Por isso, exijo ser cremado quando se desfizer a aparente unidade que sou. Imagino-me zarpando para o firmamento convertido em partículas de fumaça, e depois espargido pelas chuvas sobre os campos agrícolas e sobre as últimas florestas, ou levado pelo vento para os jardins e os rios, para o mar e as montanhas da minha terra. Por outro lado, já que é tudo tão inexorável - é fundamental que cultivemos em nós uma ampla dose de paciência para com os frágeis componentes do organismo que somos. Cada um deles - cabeça, tronco, membros e suas partes constituintes - é também um coisa viva que se deteriora, ameaçada de súbita extinção, sensível como uma pluma no vento do tempo, transitória como o orgasmo cuja essência é precisamente se perder.
Talvez nem fosse inteiramente próprio, mas era sobre isto que conversávamos, sentados a uma das mesas da Confeitaria Colonial, junto às breves cortinas de rendas claras movidas agora pela brisa da manhã, um diante do outro - ele, meu amigo, e eu, seu idem.
Ele é um moço bonito, saudável, de olhar inquieto e riso franco. Podia ser meu filho, mas tive a sorte de não me tornar seu pai, embora me preocupe seu destino. Poderia ser meu aluno, mas já passou da fase escolar, embora se dirija a mim como se eu fosse professor.
Enquanto rolava nosso papo, e brincávamos nesse bom jogo de vida que é sentar-nos com alguém para comer e conversar, observei no terreno vermelho da toalha, ultrapassando a cantoneira bordada próxima do cotovelo direito de meu camarada, um serzinho móvel que se dirigia em linha reta para o centro da mesa.
Tratava-se, pelas evidências, de uma minúscula formiga-açucareira, voraz devoradora de doces. Passeava sozinha, talvez porque fosse domingo em Joinville: quem se postasse no terraço do Deville veria nossa bela cidade bordada de jardins, exalando saúde na paz das ruas ao longo das quais uns raros transeuntes solitários - minúsculos, vistos aqui de cima - perambulavam com esse prazer peculiar que sentimos quando caminhamos ao léu nas manhãs dos feriados. Fora assim, vagabundeando tranqüilos, que acabáramos na confeitaria.
Seguia a formiguinha pelas ondulações do linho, ora avançando, ora retrocedendo, voltando-se para cá ou para lá, sempre agitando no ar as duas anteninhas quase invisíveis, cujos movimentos lembravam os gestos que os cegos recentes fazem com os braços ou a bengala - tenteios no espaço à cata de vestígios que lhes indiquem as rotas. Para a formiguinha, um cheiro, de certo. Aonde ia dar sua pesquisa?
- O açucareiro? - murmurei.
O açucareiro estava perto de meu cotovelo esquerdo, precisamente na diagonal que o pequeno himenóptero vinha percorrendo.
A gente ficou ali, à espreita do que viria a acontecer, enquanto sobre a mesa jaziam as apetitosas iguarias - leite, café, pães, musses, manteiga, queijo, presunto, salames, cuca, bolo, torta de requeijão, além de nossas duas xícaras de café com leite, antes fumegantes e agora duas superfícies imóveis recobertas pela nata que tivera tempo de vir depositar-se à tona.
De repente e sem explicação, a formiguinha mudou de rumo. Não levantou uma bandeirinha, não apitou, não deu sinal nem nada. Apenas dirigiu-se para o prato de requeijão e por ali mesmo começou o trabalho de minerar seus néctares. E assim, abandonando o artrópode às suas escavações, a gente retomou o fio do nosso assunto, voltando, como se diz, à vaca fria.
Meu amigo estava naquele estágio da vida em que, conforme lhes seja propício, os adultos nos consideram crianças quando já queremos ser adultos, e adultos quando ainda sonhamos ser crianças. Dos conflitos que nascem neste território sem definições da primeira juventude, o mais terrível é aquele que nos põe diante da necessidade de adotarmos ou rejeitarmos para sempre os modelos explicatórios do universo e da vida que a educação simplorizante (familiar, eclesial, escolar) enterra no nosso crânio.
A comodidade depende disto: de adotarmos, voluntariamente ou por imposição, um sistema de referência e conduzirmos nossa vida segundo suas definições. Mas, a felicidade não tem precisamente a ver com a comodidade. Quando questionamos os modelos recebidos do passado, quando assumimos a rebeldia como um modo mais saudável de existir - negando a inexorabilidade do fim -, quando cada atitude começa a exigir de nós alguma reflexão, então nossa consciência passa a conhecer uma espécie de angústia. Esta angústia não é destrutiva: antes, é o alimento da poesia. De resolvê-la incansavelmente, todos os dias, é que nasce o sentido de viver.
Ele pigarreou. Parecia querer perguntar-me algo importante. Segurou a faca com a lâmina ao contrário, e com o cabo de madeira foi tecendo cabisbaixo um arabesco invisível em torno de seu pires.
De repente interrompeu o desenho, elevou para mim apenas os grandes olhos luminosos e assim deteve-se um instante, como se houvesse congelado.
- Afinal – me perguntou – tu achas que a vida tem sentido?
E amassou inadvertidamente com o cabo da faca a formiguinha.
(Borges de Garuva)
Soube de um cara que, um dia, ao despertar, constatou que duas pequenas asas lhe haviam nascido sobre as omoplatas. Pior: em poucos minutos, notou também que elas cresciam a olhos vistos.
Irritado e incapaz de aparecer assim perante os chefes e os colegas de trabalho, decidiu procurar imediatamente uma solução, e se pôs, desesperado, a vasculhar na internet alguma substância própria para remoção de asas.
Reunindo depois os ingredientes requeridos, produziu uma pomada que, diligente e trabalhosamente, passou a aplicar várias vezes ao dia sobre os pedúnculos dos indesejados apêndices.
Certa manhã, constatando que as asas haviam caído, embrulhou-as num grande saco plástico, que despachou na coleta matinal do lixo urbano.
Então, lhe ocorreu que, nem por um único segundo, se dera ao trabalho de experimentar se as asas lhe poderiam ser úteis para voar! E, contemplando no céu azul a revoada tranquila dos urubus, pôs-se desconsolado a chorar, sentindo-se irremediavelmente mutilado.
Eis aqui um extrato de Confesiones de un ateo, belo texto de Roberto Castillo Sandoval, publicado no seu Noticias secretas - Crónicas y comentarios desde la Región y Archipiélago de las Antípodas, interessante blog chileno de política e cultura.
Soy un ateo de catecismo, de los que van derechito al infierno.
Una amiga monja que sabía mi secreto siempre andaba tratando de curarme de mi ateísmo. Una tarde me preguntó si alguna vez yo había creído en Dios. Me acordé entonces de mi Primera Comunión, a los ocho años. Gracias a mis lecturas, yo estaba como el trapito del cóctel molotov, listo para el fósforo divino. Tenía la cabeza empapada de leseras fantásticas sacadas de las novelas de Emilio Salgari y de Julio Verne. En el catecismo de preparación para la Eucaristía, había descubierto que algunos de los cuentos de la Biblia le hacían el peso a las aventuras del Tigre de la Malasia o el Capitán Nemo. Había excelentes mini-series de cautiverios, travesías por el desierto, arbustos-llamaradas con voz de trueno, ciudades incendiadas, inundaciones y océanos que se dividen, venganzas cabronas, amores clandestinos y harta sangre. Las Sagradas Escrituras me agarraron por el lado sensacionalista: “Mujer mirona se convierte en estatua de sal”, “Lluvia de sapos en Egipto”, “OVNI en la carretera de Damasco causa volcamiento”, “Nueva desgracia de Job”.
Y así, en medio de mi Primera Comunión, se alineó el sol de tal manera con el planeta Tierra, que un rayo fulgurante pasó por el ojo de ámbar de un vitral de la parroquia de San Miguel y fue a dar directamente sobre mi cabeza engominada. El golpe de electricidad divina casi me chamuscó la cintita blanca con letras doradas que me habían amarrado al brazo. Yo pasaba por un momento de angustia, debido a que tenía la hostia adherida al paladar y no lograba despegarla con la lengua. Tocar la hostia con los dedos era pecado mortal, aparte de poco digno. Cuando una arcada satánica estaba a punto de derrotar mi incipiente santidad, el impacto del rayo de sol soltó la oblea sacra. Lo que sentí al tragarla sólo lo puedo comparar con ese calorcito que se extiende esófago abajo después de un sorbo de ron macizo.
Para arejar o momento, leia o artigo completo.
"(...) o esforço para a felicidade é quase desumano e precisa ser feito a cada segundo, em cada pensamento e cada gesto. Por isso é tão fácil desistir de ser feliz e apenas sobreviver."
(Valter Hugo Mãe)
Com essa epígrafe, Hannah Arendt inicia seu texto Entre o passado e o futuro (1972) sobre os legados que uma geração deixa a outra e que são guias imprescindíveis para que cada uma seja capaz de posicionar-se no presente como sujeito da História. Para tanto, segundo ela, é necessário que as gerações sejam capazes de nomear suas realizações, seus feitos, dar sentido a eles e, assim, poder ofertá-los àqueles que chegam ao mundo.
Decepcionado após ver, ontem, "Cavalo de guerra". Minhas impressões aqui são apressadas e superficiais - a imagem geral que me restou da obra.
O filme já nasceu prontinho para a Sessão da Tarde - nem precisa envelhecer. E faltou açúcar na lata do Spielberg: com uma narrativa mais que melíflua, com personagens esquemáticos, sem consistência dramática, o diretor parece conter-se (por tédio de veterano?) em quase todos os aspectos que poderiam tornar o filme memorável. Os primeiros minutos até que se desenham como uma promessa... mas ficam nisto. No final, tudo assume uma coerência danada: heróis involuntários, animais que parecem gente, campos de guerra com jeito de parques de paintball, personagens alemães e franceses falando inglês (umas vezes com um sotaque inexplicável, mesmo no caso de Emilie, que é francesa)... tudo pontuado pela música de John Williams (enternecedora e empolgante, é claro), que lembra os grandes épicos de Enio Morricone e do próprio JW, contra uma paisagem estonteantemente linda, às vezes de tirar o fôlego. (Queria poder filmar com esse diretor de fotografia - Janusz Kaminski!)
Acho que a cena mais interessante - e que pode tornar-se antológica (justamente porque a sequencia é temperada com uma agradável dose de ironia) - é a fuga de Joey na madrugada e seu salvamento quando acaba na terra-de-ninguém.
Enfim, à guisa de arremate: quem quiser curtir o filme deve ir vê-lo sem expectativas. Acho que procurei nele mais do que tinha pra me dar; pensava em algo bonito, aventuroso e sério, como alguns outros do diretor... mas, não é o caso de "Cavalo de guerra" - é um Spielberg, sim, mas bem mediano e mesmo assim vai lavar nas bilheterias do mundo. Próprio da grande indústria.
A chegar em casa, esta tarde, encontrei nossa cadelinha estrebuchando, tremendo e já toda entrevada.
Corri com ela imediatamente para o veterinário - Foi chumbinho, ele disse, enquanto ministrava à cadelinha os medicamentos de praxe.
Há pouco, ele me notificou a morte dela.
Temos por aqui um morador absurdo. Ninguém sabe quem é. Já perdemos dois gatos; os vizinhos da frente quase perderam seu cachorrinho. Meu irmão, que morava ao lado, teve também um cachorro envenenado.
Dá vontade de sair à caça do filho-da-puta, mas a tristeza não deixa: um animal assim como esse vizinho imbecil talvez não mereça tanta atenção: um dia, de tanto lhe querermos mal, ele haverá de ir também, estrebuchante e sozinho, meter-se na sua cova.

Tínhamos uma imensa Laika (v. abaixo), fila/são-bernardo, que envelheceu o suficiente para dormir de vez.
Em maio, introduzimos na Rufinder, como companheira oficial do Coisinha-de-Nada que estava viúvo desde 25/11/2009, a Laikinha, que não tem nada a ver com a nossa ex-Laika e nem com a Laika que foi pro espaço em 1957 e que parece ter morrido de pavor após 5 horas de vôo.
Não poderia deixar de participar do lançamento oficial da horta comunitária localizada nas imediações da minha casa. Com o tempo livre reduzido e a impossibilidade de cuidar sistematicamente da minha própria horta, vinha pensado numa alternava. Ela já existia e era um programa do governo federal chamado Hortas Urbanas.
Em Joinville são quatro, já. A do Jardim Iririú – a Horta Comunitária Girassol – vem produzindo hortaliças e legumes não-envenenados há alguns meses. E eu não sabia!
Ontem, o prefeito Carlito Merss fez a entrega oficial do terreno público onde funciona a horta, que é tocada por voluntários e atende famílias carentes cadastradas. Quem trabalha na horta pode usufruir também de seus produtos. O excedente é, vendido para a comunidade por preços convidativos.
Só pensei que conseguiria manter regularidade nos relatos de nossa viagem pelo Norte-Nordeste. Embora tenha escrito, sim, longos relatos acerca da viagem, eles ficaram lá no meu caderno, manuscritos nos aviões, nos bares, nos hotéis... Mas quem disse que tive ou tenho paciência para digitá-los agora? Então, que fiquem lá até que esta paciência pinte.
Enquanto isto, aqui no BGlog, vou tentando retomar meus balbucios esporádicos.
Chegamos a Manaus ontem à tarde, depois de uma tranquila viagem de Gol. Do avião, sempre em meio a uma poderosa nuvem de névoa seca (fumaça das queimadas), pudemos ver de longe coisas mais ou menos conhecidas por meio de referências, mas sempre distantes: as grandes represas (reconheci a Represa de Privamera, assentamentos, as infindas retas das estradas, partes das chapadas, os pedacinhos que sobram do cerrado, os campos do Mato Grosso do Sul, e Campo Grande e Cuiabá (onde paramos), além da eterna colcha de retalhos dos campos cultivados (praticamente nada mais resta sem intervenção humana até bem depois de sairmos de Porto Velho, cruzando o rio Madeira e sobrevoando a(s) BR(s) 174(319), que atravessa o verdejume quase negro da floresta. A maior emoção foi ver ao longe o Solimões que se aproximava e quase não cabia nos olhos de tão grande. Mas, nada como ver, logo depois, a enormidade do rio Negro!
Primeiro ritual para marcar a chegada em Manaus: jantar pirarucu grelhado na frente do Teatro Amazonas e, depois, ir ao Teatro para ver a terceira apresentação gratuita para a cidade da produção recente da Orquestra de Violões de Manaus, acompanhada do Coral e do Ballet Experimental do Teatro Amazonas.
O espetáculo é bem singelo, mas bonito. Para mim, um momento fascinante: sentar-me diante do palco onde Fitzcarraldo pôde assistir à última cena de Lucia de Lamermoor (se bem lembro), após convencer o porteiro (interpretado por Milton Nascimento) a deixá-lo entrar atrasado no TA. Mais marcante por se tratar de um espetáculo com música produzida em Manaus e falando da Amazônia!
Agora, da sacada do hotel, ouvindo um sambinha executado por um senhor baiano-carioca de muito boas maneiras (encarnação de Caymi misturado com Vinicius de Moraes), contemplo ao longe o encontro nascimento do Amazonas a partir do encontro Solimões com o Negro. 40 graus. Sol a pino. Cá estou, portanto, no meu destino. Por quatro dias.
Os apontamentos a seguir servirão apenas para compartilhar uns rápidos registros rápidos de minha primeira viagem para perto do equador brasileiro: Manaus, Santarém, Belém e Natal.. Depois, com alma e calma, distilarei os efeitos que, já sei, serão duradouros, deste contato com o Brasil que sempre soube existir... mas que continuava a ser, para mim, quase puramente mitológico.