domingo, 4 de maio de 2014

A vertigem da infinitude.

Ontem, após o café da manhã, ocorreu-me a ideia de brincar um pouquinho com o tema da infinitude, por causa de uma dorzinha aguda que estava sentindo num dos dedos do pé, como se houvesse uma agulha dentro do calçado que o estivesse picando. Tirei o calçado e nada havia ali que eu pudesse extrair para aliviar a dor.

Fonte: http://uvs-model.com/UVS%20on%20unisonal%20evolution%20mechanism.htmAo caminhar para o carro e depois, ao andar com o Coisinha-de-Nada, meu cachorrio, a ligação entre a minha mente que sentia e o ponto exato do dedo que doía, pareceu-me de repente vertiginosamente enorme. Essas duas áreas do meu corpo, que normalmente sinto tão modesto em dimensões, pareciam separadas por trilhões de células organizadas em tecidos e nervos quilométricos, que realizavam essa transmissão e possibilitavam a consciência da picada impertinente.

O tema foi me ocupando e desdobrando-se em possibilidades, até conduzir-me a uma região que me parecia, novamente, os limites da totalidade – aqueles mesmos que pensei atingir num dos rituais com ayahuasca, de que participei em março do ano passado. Tentei forçar um pouco a barra e mergulhei na dor da vertigem, no desamparo de não poder meter na cabeça a porra da infinitude.

E então, o movimento seguinte: a  incontornável sensação de que não há mesmo nenhuma outra saída que não a mera resignação à pequena vida que vivemos – nós e as formiguinhas que esmaguei pela manhã ao limpar a mesa do café. Parece que o ser humano se meteu num labirinto que só poderia ter evitado lá atrás: o da consciência de si. Para sua desgraça, essa consciência não pode ultrapassar certas paragens além das quais se desconfigura todo e qualquer sentido. Sobretudo, não pode se perguntar de modo algum – sob pena de berrar de dor – o que existe para além desses limites.

E todavia, nenhum indivíduo que tenha uma vez chegado lá, consegue erradicar de si, o desejo de lá retornar, mesmo sob o risco de enlouquecer.

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