quinta-feira, 10 de março de 2011

O grande e indizível mal no cerne da nossa cultura é o monoteísmo. A partir de um texto bárbaro da Idade do Bronze, conhecido como o Antigo Testamento, evoluíram três religiões anti-humanas - o judaísmo, o cristianismo e o islã. São religiões de deus-no-céu. São, literalmente, patriarcais - Deus é o pai onipotente -, daí o desprezo às mulheres por 2.000 anos nos países afligidos pelo deus-no-céu e seus enviados masculinos terrestres.


O deus-no-céu é, naturalmente, um deus ciumento. Exige obediência total de todo mundo, uma vez que aí se encontra não apenas para uma tribo, mas para toda a criação. Aqueles que o rejeitam devem ser, para o seu próprio bem, convertidos ou mortos. Assim, o totalitarismo é a única forma de política que pode servir aos propósitos do deus-no-céu. Qualquer movimento de natureza libertária ameaça sua autoridade e a de seus delegados na terra. Um só Deus, um só Rei, um só Papa, um único senhor na fábrica, o pai-líder na família.
(Gore Vidal, Monotheism and its discontents)

domingo, 6 de março de 2011

Carnaval de Joinville 2011

Durante muitos anos, desde os tempos do primeiro governo Freitag, Joinville ficou sem Carnaval porque, segundo uma fatia poderosa e espertalhona da cidade, o povo joinvilense é um povo trabalhador e não gosta de carnaval.
Pois, desde que a Fundação Cultural decidiu retomar a festa mais popular do Brasil nosso Carnaval vem crescendo e ficando cada vez mais gostoso. Em 2009, tivemos cerca de 15.000 pessoas no Mercado Público. Como o espaço ficou pequeno, o endereço mudou em 2010 para a Dario Salles / Praça da Bandeira. Perfeito: perto de 25.000 pessoas caíram na folia. Agora, em 2011, mesmo em meio aos pampeiros periódicos, a praça recebeu na primeira noite umas 8.000 pessoas e, ontem, bateu a casa dos 20.000 de novo, pelo que o olhar indica.

Taí: 3h40min da manhã, de costas para o palco, que está a uns 20 metros atrás de mim. Dá pra ver que o povo joinvilense odeia Carnaval. Eita!

"(...) nesse meu mundinho privilegiado em que o machismo me afetou muito pouco, por que fui e continuo sendo feminista? Talvez por que nunca achei que o mundo girasse em torno de mim. Não sou pobre e, no entanto, empatizo com eles, quero que a vida deles melhore, voto em partidos que governam pra eles. Não sou homossexual, mas fico indignada que alguém queira negar-lhes direitos que deveriam ser de todos. Não sou negra, mas reconheço o enorme abismo que ainda existe entre negros e brancos, e sou a favor de medidas paliativas como as cotas." (Lola Aronovich)

De Meu feminismo não é pra mim, em Cartas da Lola, A Notícia, 06/03/2011, (Anexo ideias, p. 4)

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Simdec: a carta que mandei para A Notícia.

A escandalosa carta de Laura Gelly (publicada provavelmente na íntegra na edição desta quinta-feira) é um atentado à honra dos artistas e agentes culturais de Joinville (cidadãos e instituições), além de ser, obviamente, um atentado contra a coisa pública: o Simdec é uma conquista desta cidade, um dispositivo de política pública voltada para a promoção da arte e da cultura, equivalente aos que existem em outras áreas do governo (habitação, agricultura, indústria, comércio, turismo) nas quais políticas públicas como o Simdec permitem o fomento à produção e à geração de emprego e renda.

Outros farão do Simdec melhor defesa do que eu. Mas, como cidadão e como agente cultural desde os ans 70, devo esperar que os fruidores de arte e cultura, os artistas e as instituições até hoje apoiadas pelo Sistema Municipal de Desenvolvimento pela Cultura se levantem para a defesa da coisa pública, contra os desaforos irresponsáveis de Laura Gelly, marcadas por um irracionalismo, que, sabemos, não é só dela. Sua incompetência como cidadã é apenas uma pontinha daquele parcel que manteve a cultura joinvilense por tantos anos à mercê de meceninhas e cabos-eleitorais aboletados nos seus balcões de negócio.

Quem desejar conhecer melhor o Simdec de Joinville (respeitadíssimo e exemplo para os sistemas de apoio à cultura em várias outras cidades), visite seu portal, em http://www.simdec.com.br/.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Teatro Invade.

Momento importante para o teatro joinvilense foi o lançamento, esta noite, no Museu de Arte, do documentário de Fábio Porto sobre o projeto Teatro Invade, realizado em 2010 com recursos do edital Elisabete Anderle.

Espero poder escrever com mais detalhe sobre o acontecimento.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O poder da imprensa (minirreflexão).

À página 14 (An.Mundo) da sua última edição dominical, A Notícia publicou uma matéria evidentemente irresponsável, assinada pela jornalista Laura Schenkel, do Zero Hora: As mulheres de Berlusconi. Esta chamada sintetiza os equívocos do texto: "Poderoso. Dono de um time de futebol. Mulheres. Muitas. São tantas que poderiam formar um calendário".

Dois problemas: (1) a matéria parece tratar de um grande ator cinematográfico – um personagem glamuroso de Hollywood – e não de um réu que responde a processo na corte italiana, e (2) a chamada "esquece" precisamente o que é mais importante: Berlusconi não é apenas dono de um time de futebol, mas também DE UMA ENORME REDE DE TELEVISÃO, com tentáculos plantados em diversos campos da comunicação.

Como leitor de A Notícia, senti-me no direito de expressar a minha irritação com essa matéria ao que tudo indica comprada pela máfia berluscosa, e escrevi para o jornal a seguinte mensagem:

Assumo aqui, voluntariamente, o papel de ombudsman.


Fiquei bastante preocupado com a matéria (quase escandalosa, eu diria) sobre esse inescrupuloso usurpador que, valendo-se do seu poderio de comunicação, assenhoreou-se do governo da Itália e está fazendo gato-e-sapato desse país.


Parece-me que a matéria - quase um anúncio comercial de cinema promovendo o crápula a saudável herói - foi plantada pela rede do próprio Berlusconi na RBS e, pelas mãos de Laura Schenkel (Zero Hora), está se distribuindo por suas outras unidades, entre elas, A Notícia.


Creio que o jornalismo precisa ser mais responsável para poder ser respeitado.


Pois bem, a mensagem foi publicada hoje, assim editada:

Fiquei bastante preocupado com a reportagem sobre esse inescrupuloso usurpador que, valendo-se do seu poderio de comunicação, assenhorou-se do governo da Itália e está fazendo gato e sapato daquele país. Creio que o jornalismo precisa ser mais responsável para poder ser respeitado.

Perfeita a edição, não? Por essas e outras é que bandidos como Berlusconi acabam se perpetuando no poder.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Sobre o novo curta de Fábio Porto.

Gostei. Bem-humorado. Parece que o roteiro e a direção vão caminhando numa corda bamba do início ao fim do curta - sem afundar em exageros nem se perder nas superfícies. O que era para ser brincadeira provocante, virou um recurso capaz de puxar vários fios para boas conversas a respeito da produção artística em Joinville e do Sistema Municipal de Desenvolvimento pela Cultura, o Simdec.

Nos papos após a première quatro temas foram recorrentes: (1) o imperativo da defesa do Simdec (Joinvile é um dos raros municípios que adotam esta forma democrática de distribuição de recursos para a área artístico-cultural); (2) a complexidade do trabalho da CAP e das bancas de seleção (que têm de escolher entre numerosos projetos, a partir de diversos critérios, os que deverão merecer os recursos do mecenato e do edital; (3) o reconhecimento da evolução das propostas a cada ano que passa, somado à percepção de que o Simdec não deve ser considerado a única fonte de recursos para a criação artística; e (4) a importância da apresentação de bons projetos, completos e corretos (com toda a documentação solicitada, redigidos em termos claros na descrição do seu objeto, na justificativa da proposta, nos seus orçamentos e nas suas contrapartidas).

Por falar nisto, a boa combinação entre imaginação e objetividade em geral resulta em bons projetos. Também é preciso dar tempo para que o projeto amadureça, tratando dele com boa antecipação - é visível, na CAP, quando o projeto foi elaborado no apagar das luzes do prazo de inscrição. E, sobretudo, é preciso considerar a realização do projeto dentro da realidade: a coerência entre a descrição das ações e o orçamento é absolutamente necessária. (O próprio Simdec oferece uma bateria de oficinas preparatórias para elaboração de projetos nas primeiras semanas depois do lançamento dos editais. Informação na página do sistema: http://www.simdec.com.br.)

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Temos de descansar temporariamente de nós, olhando-nos de longe e de cima e, de uma distância artística, rindo sobre nós ou chorando sobre nós, temos de descobrir o herói assim como o parvo que residem em nossa paixão pelo conhecimento.

Temos de de alegrar-nos vez por outra com nossa tolice, para podermos continuar alegres com nossa sabedoria.

(Nietzsche)

Meus textos em A Notícia

Convidado a voltar a colaborar para A Notícia, eis aqui os primeiros três textos que produzi:


  • 24/12/2010: A flauta de Neandertal
  • 14/01/2011: Anarcodeselegância
  • 11/02/2011: Da generosidade
  • sábado, 12 de fevereiro de 2011

    Meus cadernos de apontamentos.

    Não tenho a menor ideia da serventia deste registro, mas parece que esta é a finalidade dos blogs: partilhar registros pessoais, coisas da gente, sem o compromisso com o leitor nem com a objetividade, que um jornal ou uma revista impõem.

    Desde os 15 anos cultivo o hábito de blogar-me no papel.

    No início, acostumei-me a registrar no fim do dia ou durante os momentos livres, algumas ideias e acontecimentos que iam marcando a minha vida.

    A partir dos tempos de faculdade, meus cadernos tornaram-se também o repositório dos registros feitos em aula. Chamei-os de Apontatudos e numerei-os. Entre 1980 e 1996 e depois, em 2000, foram 31 cadernos de 150 folhas em média.

    Em 1997, adotei o título Notas de Laboratório, que resultou numa série de 7 cadernos, agora com páginas não pautadas e capas personalizadas, que procuravam ligar-se ao que estava rolando na minha vida.

    A partir de 2002, dei aos meus blogs de papel o título de Vestígios, passando a encaderná-los em capas duras, com imagens produzidas por mim. Adotei também a prática de criar um caderno de abertura, que contém minha agenda de endereços, os projetos com que venho trabalhado e textos com ideias com que ando às voltas no presente, bem como subsídios (alfabetos, tábuas de verbos, conjunções, preposições etc.) ligados à língua que estou estudando no momento.

    Talvez seja por causa destes cadernos que meu BGlog aqui no Blogspot quase não sai do lugar. ;)

    A seguir, a série de capas que produzi para meus registros desde 1997, inaugurada sob o luto da morte de Renato Russo.

    domingo, 6 de fevereiro de 2011

    O sagrado só me interessa enquanto celebração da vida. Recorrer ao sagrado para buscar alívio ou proteção dos males que nos afligem, ou vingança divina contra aqueles que nos prejudicam, ou mesmo a salvação eterna, não é em nada diferente de recorrer às drogas: ambas as atitudes viciam. Com a diferença de que as drogas - com algumas exceções - acabam matando apenas o próprio consumidor, enquanto o fanatismo religioso aliena o viciado (o que é apenas outra forma de morte) e mais facilmente se transforma num inferno e numa ameaça também para a sociedade.

    quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

    Ponderação do Samuca

    O jornalista Samuel Lima fez o comentário abaixo à resposta que Apolitário Ternes deu à minha Carta aberta.

    Pela precisão e qualidade do texto, achei que devia republicá-lo aqui.

    Caro Borges,

    A resposta do Sr. Apolinário Ternes, que posa de vestal, como um ser acima do "bem e do mal" (como se ele não tivesse lado na vida política de Jvlle, SC e país), é uma demonstração cabal de sua incapacidade para o diálogo civilizado elementar.

    Ele o acusa de "cooptado" pela máquina destruidora do Partido dos Trabalhadores (PT). Torpe, ao acusá-lo por supor que seu salário e condição atual de vida é pago com dinheiro do partido.

    O conteúdo é uma cantilena repetida pelos próceres demo-tucanos e dispensa comentário, exceto por duas acusações graves que o Sr. Apolinário poderia provar, de saída, em nome da honestidade intelectual que deveria balizar seus resmungos escritos:

         1) Lula e seus companheiros compõem uma "organização criminosa". Qual o crime e com base em que decisão da Justiça brasileira o Sr. acusa o ex-presidente?

         2) Por que o governo Lula é responsável pela "desconstrução da democracia brasileira"? Confesso que não consegui alcançar essa complexa elaboração...

    O resto é ilação pura, bílis ideológica de baixíssima qualidade.

    Ao Sr. Apolinário, porta-voz de forças políticas arcaicas de SC, podemos dizer, como Mário Quintana:

         Todos estes que aí estão

         Atravancando o meu caminho,

         Eles passarão.

         Eu

    (você, poeta BG)

    passarinho!

    Abraços fraternos,

    Samuca

    terça-feira, 25 de janeiro de 2011

    Caro Borges

    Comentário de Apolinário Ternes à minha Carta aberta, de 18/01/2011, aqui no BGlog.

    Caro Borges,

    Tentei comentar a carta no seu blog, infelizmente meu texto não saiu lá, como resposta. Então, dou a resposta por aqui e peço a gentileza e o espírito democrático de inserir lá minha resposta.

    Borges,

    Compreendo perfeitamente sua condição empregatícia e salarial para comentar meus artigos em AN. Não é fácil estar no outro lado do balcão, como já estive também. A situação é sempre incômoda, mas, com ´sensatez e equilíbrio é possível sim defender nossos pontos de vista.

    Entendo, pois, sua obrigação em defender o PT e suas cretina ação contra o país que jurou defender com ética para, depois, com cinismo absoluto, se aliar ao que de pior já existiu na política brasileira: Sarney, Barbalho, Renan Calheiros, Collor de Mello. O PT é aliado dessa gente toda!

    Durante oito longos anos, nos quais o Brasil surfou nas águas do crescimento mundial, em razão da reforma econômica do Plano Real - que o PT votou contra - e, assim, tivemos crescimento inegável.

    O custo político, contudo, exigirá uma geração até que se dissipe o mal que o PT faz à nação, assim como a Joinville.

    Não me surpreende a 'sanha' de patrulhamento ideológico que o PT faz em todo o país, tentando desqualificar, como você o fez em relação aos meus artigos - aqueles poucos que não se dobram e denunciam a 'vergonha nenhuma' instalada no país com Lula e seus 'cumpanheiros' da 'organização criminosa' em que se transformaram todos os partidos políticos e, justiça se faça, não apenas o PT.

    Enfim, oligarquia é o que PT construiu no país inteiro, com aquela banda podre da política brasileira.

    Tudo isso não é surpreendente. Surpreendente é ver um intelectual como você, escritor e professor, funcionário graduado da Fundação Cultural de Joinville, defender tudo isso! Você se apresenta como os 'intelectuais' das décadas de 1930 e 1940, na Europa, que defendiam até a morte a 'revolução bolchevique' na Rússia. São mentes tortas, apequenadas e subnutridas, incapazes de perceber a monstruosidade da ditadura 'stalinista' e as mortes de 30 milhões de russos, naquele tempo. Como agora, vocês o fazem em relação à desconstrução da democracia brasileira.

    É o que acontece com grande parte dos 'intelectuais' do Brasil, que se acovardam e tiram proveito pessoal da 'nova ordem revolucionária', especializada no saque da coisa pública.

    Borges, muito lamentável constatar que você, apesar da cultura e da informaçao que detém, também é prisioneiro da mesma armadilha de cooptação intelectual no Brasil. Voce certamente entristece a centenas de jovens que respeitavam seu passado de produção e trabalho correto em favor da nossa cultura.

    Deus que tê abençoe e ilumine!

    Abraço do

    Apolinario

    domingo, 23 de janeiro de 2011

    Arte chinesa: recorte e pintura em papel.

    Presentinhos que Regina Rizzolo me trouxe de Beijing há anos e que com grande prazer redescobri neste domingo. Agora posso compartilhar. Virão outros, dia destes.

    Paz de fim de tarde


    Cantinho remanescente da bela região no interior da baía Babitonga, no recôncavo da foz dos rios Barbosa e Jaguaruna. Ao fundo, a Serra de Barrancos, que emoldura a Vila da Glória...

    Um de meus inquilinos

    (Ou o inquilino sou eu?)

    terça-feira, 18 de janeiro de 2011

    Carta aberta.

    Escrevi este texto para ser publicado no jornal. Mas, acabou muito longo e não tive paciência para enxugá-lo sem truncar o conteúdo. Aqui, está, portanto, neste espaço de plena liberdade de ideias... e de número de caracteres. ;)

    Caro Apolinário

    Borges de Garuva

    “O fim de um mundo”, diz Alain Touraine, “não é o fim do mundo”. As grandes mudanças paradigmáticas por que tem passado a humanidade não significam tragédias, necessariamente.

    Teu artigo “Estado de indigência” (A Notícia, 16/01/2011) parece um grito desesperado de alguém que estivesse ficando para trás, que submergisse inexoravelmente no mar da História, impotente diante das novas forças que se levantaram para redefinir os cenários da vida política, econômica e social. O povo (“subserviente”, como dizes) acabou finalmente decidindo – sem armas, sem violência, assim, meio na base do jeitinho brasileiro – que os rumos tinham de ser outros.

    O Brasil, Apolinário, não é diferente de outras nações. Cada qual a seu tempo, elas foram arrancadas – pela força imperiosa do povo (“capado”, como dizes) – da paralisia histórica que as entrevava, para serem vertiginosamente encaixadas nos trilhos da mudança que as transformou para sempre. Foi assim, nos últimos séculos, com a Revolução Francesa e também – por que não? – com a Revolução Bolchevique, que acabou com os czares que vinham mantendo a Rússia 200 anos atrasada em relação aos outros países da Europa. Tem sido assim em muitos países dominados por oligarquias insensatas que mantêm sua gente, por séculos, em estado de escravidão ou de colônia – e que de repente se vêm no mato-sem-cachorro, tendo de abandonar as riquezas ilegitimamente acumuladas e fugir, na calada da noite, com o rabo entre as pernas, para algum paraíso fiscal deste grande mercado em que se transformou o planeta.

    Pois, no Brasil, caro historiador, não foi diferente – a não ser pelo estilo: aqui, o povo (“subserviente e capado”, como dizes) foi chegando devagarinho ao poder, foi entendendo que podia, que tinha lá o seu mecanismo de governar por meio de representantes, acatando princípios republicanos e democráticos e, empunhando a arma do voto, elegeu um operário e, agora, uma mulher, que, para infelicidade tua e de teus pares, não pertencem às oligarquias que sempre nos mantiveram subservientes e capados. O resultado foi muitíssimo melhor que o esperado, apesar das más heranças que temos tido de enfrentar (tu mesmo és testemunha: lembras dos tempos das “marolinhas” de que tanto tiraste sarro?).

    Por mais que o governo popular não seja aquele sonho revolucionário que alguns desejariam (mesmo porque, ao que parece, já não estamos em tempos de revoluções febris), é, sim, a marca de uma grande mudança de paradigma na história do Brasil: embora não tenham ficado para trás definitivamente, as velhas oligarquias parece que se tornaram repentinamente obsoletas, ainda que seus cantos de cisne moribundo ecoem aqui e acolá, inclusive em vozes como a tua.

    Teu texto lembra os discursos da minha juventude, nos bares da vida, em que, já avançada a madrugada, falseávamos estatísticas, conceitos, princípios, datas, fatos históricos e brandíamos acusações furiosas contra tudo e contra todos, com a facilidade irresponsável que a embriaguez nos facultava.

    É isto: teu texto é falaz e irresponsável. Desabona inclusive os esforços mais sérios da resistência conservadora contra os avanços inegáveis do governo popular, que só não vê quem não quer... ou que não pode.

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    Leia também Histeria apocalíptica