quinta-feira, 12 de maio de 2011

Debate em debate

Carta aberta de Charles Narloch / Fundação Cultural de Joinville em resposta ao texto de Eduardo Baumann, publicado no altjoinville, em 12/05/2011.

As críticas apontadas na carta aberta do performer Eduardo Baumann, à organização dos fóruns setoriais de cultura em Joinville - que iniciam neste final de semana - levantam questões que preocupam a Fundação Cultural de Joinville. Toda a metodologia, datas e forma de convocação da sociedade civil, têm a participação direta dos integrantes do Conselho Municipal de Política Cultural - CMPC-Jlle. Os representantes dos segmentos contemplados no CMPC-Jlle foram eleitos democraticamente na última edição da Conferência Municipal de Cultura, em 2009, que contou com a participação de aproximadamente 600 pessoas.

Tais segmentos, hoje representados no Conselho, refletem exatamente as deliberações da Sessão Plenária desta mesma Conferência. Portanto, não são arbitrárias as definições de contemplar nos fóruns alguns segmentos em detrimento de outros, como sugere o performer, que participou ativamente de todas as fases de construção do atual modelo de gestão participativa e foi um dos principais articuladores da primeira edição da Conferência Municipal de Cultura, em 2007.

O Sistema Municipal de Cultura, do qual são partes constituintes o Conselho Municipal de Política Cultural, os Fóruns Setoriais e a Conferência Municipal de Cultura, dentre outras instâncias participativas de pactuação de políticas públicas de cultura com a sociedade civil, é uma realidade em Joinville. Seu modelo foi aprovado como a principal deliberação da última Conferência e, justamente por isso, quando foi encaminhado como projeto de lei à Câmara de Vereadores, foi aprovado por unanimidade naquela casa (Lei no 6.705, de 11 de junho de 2010). A existência destas instâncias não é prerrogativa de um Governo, mas se consolida como política de Estado, já que se configura como marco legal amplamente debatido. São raros os municípios do Brasil que já possuem estas instâncias garantidas por lei.

Quanto às reuniões dos Fóruns, todas as datas foram definidas pelos representantes eleitos da sociedade civil (e não por membros do Governo Municipal, como sugere o texto), após inúmeras consultas e encaminhamento de questionário/diagnóstico, por email, desde o mês de abril. A duração das plenárias (também questionada na carta) foi definida em consulta aos membros da sociedade civil que atuam no CMPC-Jlle.

Quanto à divulgação dos Fóruns, a Fundação Cultural de Joinville reconhece suas dificuldades momentâneas, especialmente quanto à ausência de seu site principal, atualmente em reformulação e previsto para ficar novamente online até o final deste mês. Entretanto, todas as informações do CMPC-Jlle, Fóruns e Conferências, continuaram neste período sendo divulgadas normalmente, por meio dos blogs do Conselho (www.cmpc-jlle.blogspot.com), da Conferência Municipal (www.conferenciadeculturadejoinville.blogspot.com) e do SIMDEC (www.blogdosimdec.blogspot.com), e por emails encaminhados pelos representantes da sociedade civil nesse Conselho.

Os Fóruns Setoriais, que durante este mês serão reunidos pela primeira vez após a aprovação da lei do Sistema Municipal de Cultura, terão papel fundamental na elaboração dos diagnósticos setorizados e na priorização das ações, definidas exclusivamente pela Sessão Plenária da Conferência Municipal de Cultura (disponíveis desde 2009 no blog da Conferência). São estas metas, diagnósticos, e ações – pactuadas por deliberação da sociedade civil – que constituirão a base do Plano Municipal de Cultura de Joinville, previsto para os próximos dez anos. Tal Plano, como prevê a legislação vigente, também será submetido à Câmara de Vereadores, para que se consolide como marco legal.

A Fundação Cultural de Joinville estimula o debate e reconhece a importância do performer Eduardo Baumann como partícipe da construção das políticas culturais hoje praticadas em Joinville. E espera, com esta manifestação pública, ter esclarecido alguns questionamentos. Por fim, manifesta sua total concordância com alguns pontos da carta aberta, especialmente em sua finalização, que tomamos a liberdade de transcrever por considerar absolutamente pertinente:

"Cabe a todos os envolvidos no processo da cultura - criadores, produtores, receptores - assumir sua efetiva condição de agentes da política no setor e chamar para si a organização desse debate acerca do que queremos para o segmento em nossa cidade" (Eduardo Baumann, em carta aberta de 12/5/2011).

Joinville, 12 de maio de 2011.

Charles Narloch
Diretor Executivo
Fundação Cultural de Joinville

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Caríssimo Leonardo

Borges de Garuva
Publicado em A Notícia, em 8/04/2011.

Sou admirador das tuas ideias, compartilho tuas preocupações e me inspiro nos teus escritos ao decidir sobre minhas atitudes de cuidado e respeito para com nosso planeta.

Ouvi tua fala na 8a. Feira do Livro de Joinville, surpreso com as 2.000 pessoas e o respeito de adolescentes, jovens e adultos em relação às tuas palavras. A presença de estudantes, professores e outros trabalhadores, artistas, empresários, funcionários do governo e vereadores revela também o alcance social das tuas ideias.

Fascinam-me a clareza com que te diriges às pessoas e a agudeza com que denuncias aspectos predatórios do nosso modo de vida. Da mesma forma, valorizo o fato de termos um representante nosso a interferir nos fóruns em âmbito nacional e planetário – sobretudo porque podemos confiar nas tuas posturas e na pertinência da tua indignação e do teu aconselhamento.

Reconheço a força dos princípios ou valores de mudança que propões para desenvolvermos uma nova consciência e novas práticas visando legar para o futuro uma Terra habitável.

Entretanto, mesmo podendo parecer pretensioso, gostaria de deixar aqui uma contribuição em relação ao sétimo princípio.

O avanço civilizatório do ecumenismo possibilitou, nas últimas décadas, a inclusão mútua de uma ampla diversidade de abordagens da fé — e percebo, quando escolhes o termo "espiritualidade" como o sétimo valor a ser cultivado para a construção desse mundo melhor, que te referes a esse avanço congregador das sociedades.

Porém, por sua configuração histórica, a espiritualidade — definida principalmente como busca pela transcendência ou como cultivo dos valores metafísicos — exclui uma parcela significativa da população da Terra, algo em torno de um bilhão de indivíduos que não são adeptos de nenhuma crença: os que se definem e/ou são não-religiosos, os agnósticos, os que cultivam práticas ancestrais mas não religiosas de relação com a natureza e também os ateus.

Sugiro, então, que como sétimo princípio seja adotada a cultura da contemplação (lembro Alcione Araújo, teu parceiro no livro de Emir Sader, "Os sete pecados do capital"), capaz de incluir tanto a espiritualidade dos crentes quanto aquele encantamento cósmico dos descreventes, que, ao longo da história, tem produzido — bem longe dos altares — contribuições respeitabilíssimas para o conhecimento e a preservação da Mãe Terra e sua maravilhosa diversidade, nascidas de um materialíssimo amor darwiniano pela natureza.