sábado, 27 de dezembro de 2008

Coisinha-de-Nada.

Encontro com José.


Em Sampa, visitei esta semana a exposição José Saramago: a consistência dos sonhos. O título não poderia ser melhor, tanto por ser o escritor quem é, quanto por mostrar, revelando alguns aspectos de sua metodologia de trabalho, que os sonhos dos seus personagens não são resultado de simples exercícios de criatividade, mas de laboriosa pesquisa e rigorosa construção.

A gente já sabia disso, é claro: pessoalmente, leio Saramago desde o dia 12/11/1991, quando adquiri e comecei a ler O evangelho segundo Jesus Cristo. Desde então, li toda a parte da sua obra já publicada no Brasil, exceto A viagem do elefante, recém-adquirido. Tenho entrevistas com ele e sei dele por numerosas fontes.

Mas, estar diante de seus manuscritos e poder observar em numerosas passagens, por baixo dos rabiscos da revisão, a palavra rejeitada, a surpresa que se acrescenta ao texto original, o ajuste fino das sentenças e da pontuação foi, sem dúvida, emocionante.

Não foi exatamente por ser Saramago, mas por se tratar de grande literatura. Já vivi isto outras vezes, especialmente na bela exposição sobre Clarice Lispector, no Museu da Língua Portuguesa. O que me pegou nesta exposição foi a grande identificação política que tenho com os textos de Saramago: o modo peculiar com que vai penetrando, sem psicologismos e sem nenhum traço de romantismo, na vida dos seus personagens.

Embora desejasse que a exposição estivesse recebendo um grande afluxo de público, fiquei satisfeito pelo privilégio de visitá-la na companhia de Robson Benta, Guilhermo Santiago e do meu amigo Euson C. Melo. Assim, cada qual pôde seguir o seu caminho pelos diversos espaços e viver os seus momentos bem particulares com os materiais expostos, entre os quais entrevistas em vídeos, trechos de óperas criadas a partir de seus trabalhos e um emocionante paredão com incontáveis edições de suas obras pelo mundo inteiro.

Foi um sonho. Superconsistente.


A exposição permanecerá aberta de terças a domingos, das 11h às 20h, até 15/02/2009, no Instituto Tomie Ohtake.

Fim de tarde.

No seu processo de despedir-se de Joinville, Robson Benta ofereceu um bota-fora de cerveja na Babylon, sua casa no Piraí.

Amigos maravilhosos, dia lindão e ameno, banho de rio no crepúsculo.

Na volta do rio, vivemos este momento luminoso.

sábado, 29 de novembro de 2008

"Os palhaços"

Foi lançado na última quarta-feira o texto teatral de Miraci Dereti que, por censura verbal, não pôde ir à cena na Lyra em 1968.

Trata-se de Os palhaços, que Cristóvão Petry organizou e publicou com o apoio do Sistema Municipal de Desenvolvimento pela Cultura.

Além da peça de Miraci Dereti, transcrita a partir de dois textos originais com anotações do autor realizadas provavelmente durante os ensaios, o livro traz um estudo do próprio Cristóvão Petry sobre a censura e sobre o contexto em que Os palhaços foi censurada, trazendo à tona algumas borbulhas da história do nosso teatro nos anos 60-70. Lendo-o, deu vontade de partir para uma pesquisa séria a respeito do período e das razões pelas quais nosso teatro simplemente desapareceu no início dos anos 1970. (Somente nos últimos anos dessa década é que voltaram a surgir iniciativas mais consistentes de ocupação da cena, seguidas pela efervescência ocorrida na primeira metade dos anos 80.)

O tema taí. Sei que há pessoas mexendo com ele. Um dia precisaremos tramar todos os fios.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Coincidência.

Acabo de ver Ensaio sobre a cegueira ("Blindness"), de Fernando Meirelles, construído a partir do livro de Saramago.

Deixei o cinema com o espírito perturbado, quase da mesma forma como quando terminei de ler o livro, na noite de 3 de dezembro de 1995.

Hoje não é 3 de dezembro e também não será pelo filme que faço este registro - é mera coincidência, mas a data precisa ficar marcada em algum lugar: minha vida, a partir de hoje, será outra, sutilmente outra, encarada com um olhar mais inquieto e solitário, porém mais lúcido e banhado de realidade. Pelo menos por uns anos.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Carta aberta ao prefeito eleito de Joinville

Caro Carlito:

1

Amenizada, enfim, a euforia destes primeiros dias da vitória, venho cumprimentar-te pela escolha que 62,15% dos joinvilenses fizeram do teu nome para seu prefeito – o que já sabíamos que haveria de acontecer mais cedo ou mais tarde, tanto por tuas idéias e por tua atuação parlamentar, quanto pelos apoios e pela confiança que vieste cumulativamente agregando ao longo dos anos.

Foste assim escolhido para inaugurar uma nova etapa na história da cidade, cujos destinos têm sido marcados preponderantemente pelos interesses dos grandes empresários da indústria e do comércio. Parece haver chegado a vez também dos trabalhadores, dos agricultores, dos pequenos empresários, do setor de serviços, dos agentes culturais, dos professores – da população, afinal, também dizer que destino quer ter.

Sabemos que os bons frutos de qualquer mudança só podem ser alcançados a médio e longo prazos, com a devida persistência e com a generosa paciência nascida da compreensão de que, como sociedade, precisamos ainda aprender a gestão coletiva. Esta paciência e compreensão tu tens e eu confio no futuro de Joinville.

2

Acaba de chegar ao meu conhecimento a informação sobre a existência de um abaixo-assinado propondo meu nome para a presidência da Fundação Cultural. Já há dias tomei conhecimento de referências no mesmo sentido, publicadas em colunas sociais e no blog de um comunicador da cidade, também teatreiro e amigo meu, Robson da Conceição.

Realmente, sondado sobre uma possível indicação para presidir a FCJ, deixei claro que o meu interesse é o mesmo de qualquer cidadão atuante e preocupado com a nova gestão. Porém, se, por um lado, me disponho a assumir o compromisso caso seja convidado, por outro, tenho plena clareza de que a composição do quadro deve responder a interesses estratégicos, visando a efetivação do plano de governo.

Portanto, gostaria de dizer-te explicitamente: na minha opinião, tu és livre para adotar critérios de escolha que consideres importantes para o futuro da gestão. De minha parte, saberei compreender e defender, se preciso for, as tuas decisões.

3

A movimentação que está acontecendo no âmbito da cultura encontra correspondentes em outros campos e me parece bastante positiva: reflete desejo de participação.

Senti-me lisonjeado em saber que pessoas me indicaram para o cargo e este sentimento também me despertou um senso de responsabilidade diferente: fez-me entender que já somos governo, que as decisões já começam a depender de nós, que há interesses a serem considerados na tomada dessas decisões.

A partir disso, a consideração mais importante que tenho a fazer-te é a seguinte: onde quer que eu esteja (dentro ou fora da administração, no Ielusc ou na minha produção pessoal, em Joinville ou fora dela), a municipalidade poderá contar com uma disponibilidade da minha parte que não fui capaz de oferecer às outras administrações: agora entendo o projeto; agora sei onde queremos chegar; faço parte do sonho – não necessariamente como funcionário do município, mas como cidadão.

Torço, assim, para que não venham a ser tão difíceis as tuas escolhas na composição do governo e no processo de transição. Darei toda colaboração possível ao futuro Presidente da FCJ e, enquanto cidadão, atuarei dentro de todas as minhas possibilidades como um defensor do plano Joinville para toda a sua gente.

Grande abraço!

Borges de Garuva

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

O PT no governo de Joinville.

Não era sonho: era certo que haveríamos de chegar. Desde 1982, voto no Partido dos Trabalhadores. Elegi vereadores, deputados, duas senadoras e um presidente da república. Nunca me filiei, até fins do ano passado, quando tomei a decisão de assumir mais de perto o debate e a participação política.

Finalmente, chegamos ao governo. Tenho certeza de que no mandato de Carlito Merss a cidade vai aprender o modo petista de gestão participativa.

De minha parte, atuarei como um cidadão de verdade (como ainda não pude ser em Joinville), sabendo que minhas contribuições serão aproveitadas para benefício não de interesses pessoais do grupo no poder, mas da comunidade.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Um ensaio.

Aconteceu anteontem, no Sebastian Bahr, o primeiro encontro do elenco e da equipe de Um ensaio, de Fábio Porto.

Para acompanhar a produção, os irmãos Porto criaram o blog Um ensaio, para o qual remeterei os registros da parte que me toca, o papel de Diretor.

As gravações devem acontecer a partir de 17/01/2009.

domingo, 24 de agosto de 2008

Podei hoje, já com um pouco de atraso, a minha parreira. Se o tempo esfriar ainda um pouquinho antes da primavera, com certeza farei uma farta colheita.
;)

sábado, 23 de agosto de 2008

A Barca ("Trilha") em Joinville.

 

Foi das coisas mais lindas que já vi. Quero dizer: pra ser feliz, não preciso mais que isto e não acho, mesmo, que exista muita coisa de maior qualidade do que o trababalho da Barca - música feita com alegria e competência, inspirada nos cantares populares que trazem consigo sempre um traço das verdades cotidianas e toda uma generosa humildade na concepção do projeto (o documentário Turista Aprendiz, a oficina de dança Roda de Música / Música de Roda e o saboroso show Trilha).

De inspiração mario-andradiana (no sentido dessa busca de contato com os cantares do povo), o projeto A barca, nascido em 1998, vem desde 2004 cavando melodias populares e transformando-as em matéria-prima para seu trabalho artístico, que acabará ficando como um registro muito digno das cantigas do Brasil.

O show tem momentos musicalmente brilhantes, nascidos tanto da qualidade musical individual, quanto da unidade que o conjunto consegue, reunindo instrumentos de procedências e usos tão diversos, como a dupla parafernália de percussão, a rabeca, o sax, o teclado, o contrabaixo etc. Além disso, Juçara Marçal e Renata Amaral têm vozes lindas e cantam de um jeito que dá muito gosto ouvir.

Vontade enorme de botar o pé na estrada com eles (ou o remo!), na sua expedição musical rumo ao maravilhoso!

Próximos cidades por onde o grupo passará:
Florianópolis, durante esta semana, e
Curitiba, no próximo fim de semana.

O endereço do grupo na rede é
http://www.barca.com.br

(As fotos são do cartão-convite e do encarte do CD "Trilha".
Exibidas aqui sem permissão, mas espero que a intenção justifique.

 

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

 

A imaginação é menos rica que a vida.

(Andrei Tarkovski)

 

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

As FARC e a Colômbia de Uribe.

 

Não é fácil para nenhum de nós que não somos especialistas em política acompanhar a evolução dos acontecimentos do nosso tempo. Mas, algum esforço é preciso fazer para não ficarmos dizendo sim a toda bobagem que a grande mídia vomita nos nossos ouvidos.

O recente caso, em que a Colômbia tentou comprometer o governo brasileiro por sua ligação com as FARC é um exemplo típico de tramóia midiática (aquilo que chamei ontem de tráfico de opiniões), que Elaine Tavares, jornalista do Instituto de Estudos Latino-americanos da UFSC, analisa no seu artigo Farc - verdades e mentiras do front, publicado às p. 6 e 7 do Anexo de A Notícia, neste domingo, 17/08/2008.

Dois poemas de Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

 

Extraídos de O guardador de rebanhos (1911-1912).




IX

Sou um guardador de rebanhos.


O rebanho é os meus pensamentos


E os meus pensamentos são todos sensações.


Penso com os olhos e com os ouvidos


E com as mãos e os pés


E com o nariz e a boca.



Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la


E com um fruto é saber-lhe o sentido.



Por isso quando num dia de calor


Me sinto triste de gozá-lo tanto.


E me deito ao comprido na erva,


E fecho os olhos quentes,


Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,


Sei a verdade e sou feliz.


 


XLIX

Meto-me para dentro, e fecho a janela.


Trazem o candeeiro e dão as boas noites,


E a minha voz contente dá as boas noites.


Oxalá a minha vida seja sempre isto:


O dia cheio de sol, ou suave de chuva,


Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo,


A tarde suave e os ranchos que passam


Fitados com interesse da janela,


O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,


E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,


Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,


Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito.


E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.


 

domingo, 17 de agosto de 2008

Se me lembro...?

 

Essa carinha de anjo - com certeza que me lembro - oculta uma raiva danada: eu queria ter tirado essa foto olhando para a câmera (um cachãozinho de abelha com que meu avô, João Monteiro Cabral, fez muitas e bonitas fotografias na Garuva antiga). Mas, me disseram para botar o olho assim, ó: como está aí. Lembro da raiva misturada com vergonha que senti. Agora, como consegui fazer com que essa raiva não transparecesse na cara? Sei lá! Será que foi aí que comecei a experimentar meus primeiros personagens?

Traficantes de Opiniões.

É isto!Acabei finalmente de descobrir um termo adequadíssimo para conceituar certos órgãos de imprensa. A idéia me veio depois de uns procedimentos clandestinos cometidos por El tiempo, de Bogotá, mas aplica-se também à Veja e seus/suas congêneres: traficantes de opiniões.

Registrada a idéia e guardada, vou ao futebol e depois explico a lógica da coisa.

O caso da mãe cristã.

 

Em Joinville, SC, uma criança foi morta (ou morreu por acidente?) dentro de um templo da Igreja Adventista do Sétimo Dia, durante uma função. Apesar de todas as dúvidas que pairam sobre o crime, o acusado - um servente de pedreiro que algumas vezes chegou a parecer um bode expiatório sacrificado no lugar de alguém - foi julgado num tribunal quase festivo - espetacularizado pela imprensa - e condenado a 20 anos de prisão.


Eu não acompanhei a história, mas há indícios de que ele teria, na época, confessado o crime sob tortura e de que, ao contrário do que propunha a acusação, a criança não teria sido seviciada.


O fato é que, agora, ele está recluso e não pode recorrer.

 

Pois bem: não é terror bastante ter o rapaz acusado de matar Grabrielli de passar os próximos 20 anos de sua vida na cadeia? Não é punição suficiente perder a liberdade e ter a cidadania travada por duas décadas?

Segundo a mãe da menina - que deve ser adventista -, não! Pelo crime, a pena foi pequena, disse. É o que Jefferson Saavedra pinçou dos depoimentos dela e estampou na coluna AN.portal, à p. 2 de A notícia (se você for dotado de paciência digital, visite o blog dele em an.com.br / domingo, 17/08/2008).

Ora, a declaração da mãe da menina é típica de uma imensa parcela dos cristãos. Reflete ódio e vingança e parece desejar a pena de morte para o criminoso, bem ao contrário da proposta evangélica de oferecer a outra face e, sobretudo, de perdoar.

Claaaro, precisamos compreender que ela está com o coração ferido pelo desaparecimento brutal da sua criança, mas, isto não deveria anular o seu bom senso, nem o nosso. O que nos distingue dos criminosos em geral é que, diante dos reveses da vida, tentamos manter a lucidez em vez de sairmos trucidando todo mundo.

Mas, ela não tem culpa. A culpa é de uma certa tradição político-religiosa que vem acompanhando o cristianismo ao longo de sua história e dele não pode ser ainda inteiramente separada: a tradição do olho-por-olho e do dente-por-dente, modo jurídico que regulava as tribos da Mesopotâmia e que, desde que Israel declarou-se o povo eleito de Deus (haja prepotência!), passou a difundir-se com ele para o oriente próximo e depois, com o movimento cristão, para a Europa.

Mas, quantos dois-mil anos mais serão necessários para que a doutrina cristã seja realmente compreendida e praticada - não na forma reguladora e burra como a maior parte dos fanáticos e fundamentalistas quer, mas segundo a proposta lúcida e generosa que a caracteriza nas origens?

Bem, eu não tenho muita certeza de que isto venha a ocorrer. Ao contrário, como se pode ver tanto no mundo cristão quanto no islâmico, um fundamentalismo furioso e bárbaro parece alçar-se como modelo de religiosidade - contra todo o empenho civilizatório dos últimos séculos da nossa história.

Sei lá...

Sobre jornalismo cultural.

 

Organizando meus arquivos, catei este texto. Merecedor de uma releitura, esta será feita nos dias seguintes à publicação, a partir de conversas que espero poder conduzir com as pessoas (público e profissionais) do meu convívio. Embora em alguns aspectos o texto já deva ser reparado, muita coisa no nosso jornalismo cultural persiste na mesmíssima. Taí, então, uma contribuição minha para o debate.

 

Entrevista a Jamil Marques, então estudante de comunicação na Universidade da Bahia (2000).

 

Uma vez que atuamos em regiões tão distantes do Brasil e considerando que tu já deves ter uma percepção do jornalismo cultural praticado no Nordeste, tentarei refletir um pouquinho sobre as práticas da imprensa aqui do Sul, especialmente do eixo Curitiba – Joinville – Florianópolis, com que estou mais diretamente em contato. Assim, antecipo um item de tua primeira pergunta: o suplemento cultural que tomo como referência é o "Anexo" do Jornal A Notícia . O caderno é cambiante: oscila entre a sofisticação e a mediocridade, da mesma forma como o jornal. Já foi brilhante em alguns momentos. Recentemente, não estava bom. Agora, voltou às mãos de uma de suas primeiras editoras, a jornalista Néri Pedroso – presumo que o Anexo voltará aos seus bons tempos. (Podes acessar números atrasados de A Notícia no endereço acima.)

1 - O que você entende por Jornalismo Cultural e como você vê a situação desta especialidade de Jornalismo no Brasil? (Cite, por favor, um bom exemplo de Caderno de Cultura.)

Antes de tudo, jornalismo cultural é jornalismo: isto é, não é publicação técnica, científica ou especializada. É um âmbito do jornalismo que se caracteriza pelos conteúdos com que trabalha, ou seja, com os acontecimentos intelectuais (artísticos e científicos, principalmente) e com isto que se convencionou designar como "variedades" e que engloba também certos acontecimentos sociais, os movimentos, os debates, as tradições... a cultura, enfim.

Existe, todavia, uma tendência (principalmente da parte dos próprios intelectuais, dos artistas, dos cientistas) a esperar do jornalismo cultural uma abordagem de fundo, um tratamento mais especializado das matérias e, sobretudo, procedimentos adequados aos metiês com que lida.

Para mim, jornalismo cultural é, ao mesmo tempo, um espaço privilegiado onde pode florescer a crítica e onde o público pode entrar em contato com a produção intelectual, artística e científica de uma comunidade, um país ou do mundo. Como atividade jornalística, precisa ser bem realizado, pois me parece que o parâmetro da qualidade deve ser aplicável a qualquer das atividades jornalísticas e existem bons exemplos em todo o País de ótimos profissionais trabalhando na área de esportes, por exemplo, cujo texto é muitíssimo mais sofisticado e eficaz do que o de muito jornalista cultural por aí.

2 - Qual a sua opinião sobre a cobertura dos produtos da "indústria cultural" feita pelos jornais brasileiros? Há perda ou reforço de nossa identidade?

Não falarei da indústria de discos porque a barafunda é tão grande que me sinto incompetente para compreender suas políticas – por não atuar na área senão como consumidor – e irritado perante a desfaçatez com que o produto importado ganha os espaços em detrimento das (ainda minguadas) ofertas nacionais.

Falarei do cinema.

Nos jornais da região acima referida, a produção da grande indústria dos Estados Unidos acabou por tomar quase a totalidade das páginas dedicadas ao cinema. Os jornalistas funcionários do "Anexo" não são necessariamente pessoas alienadas em relação à filmografia de qualidade produzida no mundo inteiro e alguns deles têm a prática de ir a Florianópolis, Curitiba e São Paulo para manter-se informados. Nas conversas que com eles travamos nos bares e nos eventos, somos todos muito lúcidos em relação às coisas que acontecem no mundo. Nas edições que se seguem, dia após dia, porém, as coisas mudam de figura.

O problema é institucional: a empresa compra as matérias distribuídas pelos monopólios e, como o número de jornalistas é demasiadamente reduzido pra acompanhar tudo o que ocorre na região e no País, essas matérias acabam servindo pra encher os buracos nas edições do suplemento. Para cada matéria de filme brasileiro são publicadas páginas de texto e imagens a cores de filmes ianques. Sem critério outro além da média que seus autores sabem estabelecer com os espectadores, à revelia de qualquer ponto de vista estética, filosófica ou politicamente lúcido.

Obviamente, a perda de identidade é conseqüência inevitável, embora haja quem afirme ser inócua a influência do jornalismo cultural sobre o gosto do povo em relação aos produtos já "marketizados" pelo jornalismo comum. A verdade é que brasileiro não gosta de se ver na tela. Brasileiro detesta ouvir Português nos cinemas (tanto detesta que fica em massa denegrindo a qualidade sonora dos filmes brasileiros – que nem são tão ruins assim, temos coisas muito piores). Brasileiro goza nas calças quando vê bandeira americana tremulando num forte reconquistado.

Mas, isto não vale pra todo mundo: nos grandes e nos pequenos centros, o próprio público, à medida que se familiariza com os acontecimentos e as questões ligadas à produção artístico-cultural, torna-se mais exigente. Aos poucos, desde uns 10 anos para cá, vem se formando novamente uma espécie de massa crítica da qual surgem ocasionalmente alguns lúcidos cronistas que passam a integrar o jornalismo cultural. Começamos a ver isto por aqui.

3 - No Jornalismo Cultural, podemos observar a predominância em páginas e mais páginas, de alguns olimpianos, os "gurus" da intelectualidade, ou da arte. O Jornalismo Cultural, praticado desta forma, chega a se confundir com o colunismo social?

Como escritor e como teatrista enfrentei algumas vezes, sobretudo nos começos do meu trabalho, a falta de espaço nos meios de comunicação, ocupados que estavam por aqueles que, antes de mim, estavam trabalhando na área.

Depois, a situação mudou: passei eu próprio a ocupar certas "posições catedráticas" na imprensa local, de modo que, em se tratando de teatro, por exemplo, havia quase uma unanimidade em torno de meu nome na imprensa. Eu não

gostava disto, mas era assim que era.

Somente depois de três anos de quase clausura foi que consegui pôr-me na periferia das questões teatrais de Joinville (sobretudo porque os novos funcionários públicos não tinham um projeto cultural que me incluísse). Foi muito bom: plantei uma horta e aprendi a cultivar flores! : )

Enfim, embora devamos sonhar com um jornalismo cultural radicalmente democrático, na prática, no trabalho concreto de produzir diariamente colunas e colunas de assuntos culturais, é uma salvação quando aparecem sumidades que preencham uma, duas, três páginas de matéria relevante para um público certo ou de gosto apurado, que compre o jornal.

Eu próprio tenho (desde menino) uma predileção por textos de autoridades literárias, cinematográficas, musicais. Gosto dos artigos de fundo, das entrevistas realizadas por especialistas convidados etc.

Parece-me que a democracia radical está não em restringirmos o uso dos espaços tradicionais pelo olimpianos, mas – como éramos férteis nos anos 70! – em criar mídias alternativas, espaços novos de informação e de expressão.

Como internauta, percebo que existe hoje um jornalismo cultural totalmente construído à margem do jornalismo cultural oficial da "Folha" e do "Estadão", por exemplo. São os círculos (os "rings") criados na internet, as bases virtuais pessoais (como as minhas, uma abandonada; outra, inacabada!), as inumeráveis páginas de literatura, de cinema, de fotografia, de teatro, de filosofia, de história, de antropologia... de tudo o que se possa imaginar – páginas de peso, não meras brincadeiras acadêmicas ou amadoras –, que recebem colaborações de visitantes e que concentram vínculos para uma cadeia inesgotável de outras possibilidades.

E, então, estamos diante de duas alternativas: ou batalhamos para entrar no espaço restrito dos meios tradicionais em que se privilegiam aqueles que, merecidamente, eu penso, devem ser ouvidos por sua experiência e pela solidez de suas obras, ou mergulhamos com a cara e a coragem no mar de possibilidades que é a internet.

O bom jornalismo cultural é, então, aquele que, trafegando entre um e outro destes universos midiáticos, pode tecer conexões entre os acontecimentos relevantes e o público.

4 - O Jornalismo tradicional está se transformando num "publijornalismo", isto é, um Jornalismo para vender produtos? Sabemos de casos em que o jornalista ganha uma entrevista exclusiva com o cantor desde que dê a primeira capa do caderno para seu novo disco.

O jornalismo tradicional passou pelas mesmas transformações por que passaram todas as formas da empresa capitalista, desde a Revolução Industrial até as mais recentes configurações do neoliberalismo, expresso sobretudo pelo capitalismo de mercado globalizado.

As empresas têm como objetivo e razão o lucro. E nada mais, apesar dos seus belos discursos. Antigamente havia, sim, empresas criadas para beneficiar a coletividade. O próprio conceito de empresa pública era isto. Hoje, as empresas são criadas e mantidas como operações de esperteza, que ocupam (como antigamente os generais, usando seus guerreiros, ocupavam os territórios do inimigo) os mercados.

Não existem mais jornais cuja finalidade seja realmente informar ou contribuir para o desenvolvimento da sociedade etc. Os jornais são empresas que querem vender.

O "publijornalismo" vende mais do que o jornalismo cultural efetivo (e não tem o perigo de dar voz àqueles ou aquelas que possam vir a ameaçar, mais cedo ou mais tarde, as oportunas e lucrativas relações com o poder).

5 - O Jornalismo Cultural deveria funcionar como uma crítica intelectual ou como um serviço de utilidade pública?

Creio que ambas as funções devem estar englobadas dentro do jornalismo cultural. Um jornal, por exemplo, deve tanto listar os filmes, espetáculo e eventos da cidade, quanto abrir espaço para que críticos, artistas, cientistas, organizadores e o próprio público se manifestem acerca dos acontecimentos. Por aí, penso.

sábado, 16 de agosto de 2008

Em tempo de eleição (1)

 

À medida que as eleições se aproximam, as conversas vão esquentando em torno das candidaturas e das perspectivas do futuro governante do município. Não tenho tido tempo, até agora, para argumentar. Mas, vasculhando minhas pastas, selecionei alguns textos que podem contribuir para o debate. Vou publicá-los aos poucos aqui no BGlog, entre uma que outra postagem.

 

Histeria apocalíptica

Borges de Garuva
(escrito para o jornal A Notícia, em 29/07/2007)

O texto de Apolinário Ternes (O país do apagão, 29/7/07, em A Notícia,) reflete um descontentamento raivoso para com o governo que ajudei a eleger.

Como o irônico Celso Rangel (O PT é nossa salvação – idem, ibidem), gostaria que, no governo, o PT pudesse pôr seus sonhos em prática. Mas, só ingênuos imaginariam que a proposta do PT ganhasse as eleições ou que pudessem seus eleitos governar para além de uns meses. O PT precisou vencer dois obstáculos: por um lado, o medo do comunismo (que as elites alimentaram durante o século passado, assessoradas por governos e igrejas a seu serviço) e, por outro, o terror dos abastados de perder o monopólio do lucro. Esses obstáculos se expressavam de duas maneiras notórias: o risco Brasil e a tal incapacidade de Lula para o governo.

Para isto, a corrente majoritária do PT abriu-se, estrategicamente, às parcerias e, ao longo de três campanhas, o candidato “ignorante” tornou-se um diplomata. Coligado com um representante respeitado do empresariado nacional, conseguiu com facilidade histórica chegar ao poder.

Não era precisamente o governo com que sonhávamos, mas continua sendo a opção mais próxima. Desviou o foco das minorias abastadas e, procurando um crescimento menos vertiginoso mas mais sustentável, curou alguns dos nossos males crônicos, dando acesso à cidadania para porções mais amplas da população.

Caos? Em que momento de nossa história não houve caos? Em que momento não estivemos perto de algum apagão? Com os militares – é isto que querem dizer?

Parece que uma histeria coletiva tomou posse de um certo segmento da população, alimentada por Globos, Vejas, Estadões, Folhas etc. Uma histeria doida, que parece cegar os analistas conservadores. Uma histeria que (tiro pela culatra) vem aos poucos convertendo em heróis mesmo aqueles que mereceriam críticas por sua incompetência ou punição por seus crimes contra o patrimônio público.

Apagão? Ora, infra-estrutura não é só logística e energia. Há 20 ou 30 anos, investiu-se na tal da infra, sim, mas em detrimento de outros setores básicos, cujo colapso gerou um país complicado de se governar. Pois esses investimentos, beneficiavam segmentos que já detinham o poder econômico e queriam ampliar seus lucros.

De reivindicações assim nasceu o projeto de revitalização dos terminais aeroportuários, por exemplo: seus usuários exigiam conforto. E o número e o tamanho das pistas tiveram de permanecer os mesmos, já que o orçamento público não pode satisfazer a todas as demandas de um único setor.

Para conter exigências assim, o governo precisa de autoridade. Também precisa de autoridade para controlar a economia dos lobos, cujo desejo é sempre, como dizia Norberto Bobbio, viverem livres entre suas apetitosas ovelhinhas. A arrecadação cresceu? Óbvio. Ela possibilita investimentos na infra-estrutura física e social: impostos são uma forma de repartir a riqueza (gerada sempre com recursos da coletividade – matéria prima, energia, mão de obra e know-how), distribuindo-a um pouquinho para todos os companheiros, isto é, para o brasileiros.

Caos? Caos era antes. Agora temos um projeto de governo popular – frágil, sabemos, carecendo de ajustes, de mais coragem para vencer os obstáculos da história nacional e os empecilhos que os privilegiados criam à sua efetivação e de ágil lucidez para desmontar a máquina midiática que o ameaça. Mas, o projeto existe e está sendo implementado. Seus efeitos se fazem sentir no “cansaço” das elites, que agora resolveram botar-se histericamente em passeata pelas ruas, convocadas pelo dondoca João Dória Júnior, apoiador do Alckmin.

Neste projeto, que não é do PT mas de um conjunto de partidos, abrem-se espaços efetivos para que os cidadãos generosos possam trabalhar pela coletividade e não apenas por seus próprios interesses. Pois os interesses de cada um devem inspirar-se no interesse de todos.

Não: nosso tempo não é de apocalipse, mas de gênese.

 

Mas, que vi, vi!

 


Estas foram as duas imagens que consegui captar do último eclipse do ano, já bem depois das 19h, quando a Lua foi metendo a cara por entre as nuvens e se mostrou pra mim, já quase toda vestida de luz novamente.

Minhas primeiras performances no teatro

 

Legenda das fotos (na ordem em que aparecem no texto).

(1) Borges, como Haroldo, em O falsário (1967).


(2) Jaime Andrade, um dos atores de O falsário (1967).


(3) Belmiro Dalpiaz (O Carcereiro) e Borges (Haroldo), em O falsário (1967).


(4) +Darcy Depiné, a Mamãe Fantasma de Pluft, o fantasminha (1968).


(5) Borges, Hermógenes Fernandes e Francisco Fronza, em Lucíolo (1968).


(6) Borges, em Lucíolo (1968).


Daí que me deu, de repente, uma vontadezinha de resgatar a memória dos primeiros momentos em que pisei o palco na qualidade de ator.

Para que o resgate fosse mais fiel, eu teria de fazer uma sessão de regressão conduzida por algum especialista, mas, como isso não dá, ficam aqui estes rabiscos dos meus contatos com o teatro em Rio do Oeste, onde estudava como interno no Seminário São Francisco Xavier.

O falsário.

Primeira vez que pisei no palco como ator foi nesse espetáculo, que estava sendo montado pela turma dos maiores. Faltou um ator e fui convidado para fazer Haroldo, a vítima inocente sobre a qual o irmão mais velho faz cair o peso da acusação de falsário e que acaba na cadeia, vindo, ao final, a verdade a ser descoberta e tudo acabando muito bem. Compunham o elenco também: Francisco Fronza (Martinho), Celso Feltrin (Felinto), Plácido Mazzi (Jacinto), Hermógenes Fernandes (Tenente Franklin), Édis Lenzi (Dr. Amândio), Jaime Andrade (Sérgio, um presidiário) e Belmiro Dalpiaz (o carcereiro).

A direção de som era uma parceria minha com Dálcio Dolzan. A direção era de Salomão Oliveira Serafim. Estreamos em abril de 1967, embora eu tenha umas velhas fotografias em que está registrado "4-68".

Em criança, quando fiz o álbum, a noção do tempo era diferente ;)

Uma comédia que foi um drama!

Ainda em 1967, tomei a iniciativa de dirigir a montagem de uma comédia de assunto romano, cujo título já me esqueci. Eu era um proprietário romano que tinha a casa invadida por um general trapalhão - o cômico da peça. Como o ator (Evaldo, se não me engano) esquecesse o texto o tempo todo por causa do nervosismo, acabei fazendo o meu papel e o dele - e a peça, por isso, talvez tenha ficado realmente engraçada.

Pluft, o fantasminha (Maria Clara Machado).

Por causa de minha atuação nas duas primeiras peças (e, de certo, também por falta de outro ator melhor), fui convidado a interpretar o Pluft na montagem que um grupo da cidade estava fazendo então. Lembro-me que fizemos algumas apresentações também fora da cidade, em Rio do Sul e/ou Ibirama, algo assim. Do elenco, fazia parte uma das primeiras mulheres por quem me apaixonei (mas, ela era bem mais adulta do que eu), Darcy Depiné, que tinha sido secretária do Ginásio Allamano, onde eu estudava. Era meados de 1968 e nós provavelmente recuperamos a peça uns meses depois.

Nossas montagens, à exceção de Pluft, tinham sempre caráter religoso ou edificante. Com a eclosão da ditadura militar, outro tema que começou a aparecer foi o combate ao comunismo. Por essa época, no internato feminino que funcionava no Colégio Pio XII (o nome tem tudo a ver!), foi montado o libelo anticomunista Espanha em sangue. Eu não estava em cena, mas lembro que essa montagem e, logo depois dela, uma apresentação de Mortos sem sepultura no cineteatro São Luís, despertaram meu interesse pela direção teatral.

Lucíolo ou À procura da verdade (Sílvio d´Athaíde).

Embora Lucíolo tivesse quase nada de caráter político, levantava uma espécie de bandeira de justiça e de liberdade.

Não me recordo exatamente de como era o enredo, mas no programa mimeografado a álcool (que ainda guardo) pode-se ler: Lucíolo, filho de um general romano, inteligente e nobre, desejoso de encontrar a verdade, despreza as vaidades e luxos de seu soberbo pai. Após malograda revolta, encontrando a luz do cristianismo, parte, juntamente com milhares de cristãos para o deserto. É deste lugar solitário, onde se dá o desfecho de um drama comovente e triste, que parte uma nova e grande mensagem de fé aos cristão do nosso tempo. (Felizmente, nossa peça não foi tão convincente assim e a tal mensagem acabou não nos convencendo a virar anacoretas ;))

A peça foi montada por iniciativa minha e de alguns outros membros do grupo (como Eunaldo Verdi), mas o P. Salomão ajudou a dirigi-la. Creio que estreamos no palquinho da área de lazer que tínhamos nos fundos do colégio, mas depois nos mudamos para o presbitério da nossa capela, que em 1969 transformamos num palco de teatro. O primeiro e terceiro atos aconteciam no palácio de Lucíolo, enquanto o segundo ato se passava no deserto. Para a passagem do primeiro para o segundo e o retorno aos jardins do palácio, no terceiro ato, a direção nos propôs um desafio: fazermos toda a mudança de cena em, no máximo, um minuto. Eu gostava muitissimo desses truques, se é que ainda não sou apaixonado por eles. Outro dos truques que já vínhamos utilizando era a tecnologia rudimentar para fazer a luz subir em resistência, utilizando um tubo de água salinizada ao qual conectávamos dois eletrodos.

Do elenco de Lucíolo faziam parte: Antônio Lenzi (Caio Lúcio), eu (como Lucíolo), Eunaldo Verdi (Cecílio) - que talvez tenha sido substituído depois por Francisco Fronza, Osmir Lenzi (Marco Fábio), Moacir Chiarelli (Benjamin), Isauro Rota (Farug), Vilmar Cristofolini (Satúrnio), Nilton Sehnen (um núbio), Orlando Dalpiaz (um anacoreta) e Mário Ropelatto (um soldado). A cenografia era minha e de Antônio Lenzi. A sonoplastia, criada pela direção, era operada por meu irmão Otemar es. A iluminação era do P. Salomão O. Serafim.


Chega de memória por hoje. O sol está voltando, daqui a pouco será eclipse da lua e eu estarei com o pessoal da Udesc e o prof. Fragalli e seu telescópio no pátio da prefeitura municipal.

sábado, 9 de agosto de 2008

Pequenos achados arqueológicos deste sábado.

Sílvio, 1953-4.

Garuva, fins de 1953?

Sílvio, 17/12/1966

Rio do Oeste, 17/12/1966.

Sílvio, 1973.

Já em Joinville, inverno de 1973.

Em busca de uma de minhas primeiras fotos no palco, catei tudo menos a tal. Entre os vestígios d'antanho que jaziam nas gavetas estavam estes meus três momentos

;) Meus escritos são do tipo que só têm valor post mortem. Para pagar dívidas, não servem. (Da primeira afirmação, tenho dúvidas; da segunda, muita certeza.)

Susan Sontag: extratos de Contra a interpretação, 2

 

Comecei em julho a publicar algumas passagens que assinalei na minha primeira leitura de Contra a interpretação, de Susan Sontag. Elas refletem também um certo estado de encantamento que marcava, naquele tempo, a minha relação com a arte. [Os extratos do último capítulo foram publicados a 19/07/2008.]

 
Contra a interpretação.1

[Tarefinha pra depois do almoço e da conseqüente sesta, neste sábado chuvoso.]

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(1) SONTAG, Susan. Contra a interpetação. Porto Alegre: L&PM, 1987. p.11-23.[voltar]

Antes e depois do Renato Russo
de Bruce Gomlevsky.

 

Vi ontem, no Teatro Juarez Machado, Renato Russo, a peça, com Bruce Gomlevsky. Texto inspirado no livro O Trovador Solitário, de Arthur Delpieve, com dramaturgia de Daniela Pereira de Carvalho e direção de Mauro Mendonça Filho. Ao longo do monólogo, Bruce canta Renato competentemente acompanhado pela banda carioca Arte Profana. O espetáculo veio para Joinville pela Studio Escola de Atores - produção de Luciano Cavichiolli e Fernanda Moreira.

 

08/08/08 08:58pm. JM.
ANTES

Sempre há um lugar onde se pode escrever algo. Tenho agora apenas este bilhete de Renato Russo, a peça, que vai começar daqui a pouquinho, aqui no JM.

Pensava agorinha, olhando as pessoas que entravam (quando chegamos muito cedo ao teatro, dá nisto): não envelhecemos; antes, murchamos ou inchamos, tanto na cara quanto nas idéias.

Saí há pouco da comemoração dos 10 anos do curso de Comunicação Social do Bom Jesus/Ielusc e confesso: as idéias que nos moviam outrora eram menos academicamente fundamentadas, mas eram vitais e apaixonadas. Agora parecemos todos mais profissionais, mais determinados e o que dizíamos no início dos anos 90 soa ingênuo.

Porém, não posso deixar de comparar meus colegas de agora com os daquele tempo - e a sensação é a mesma de quando me confronto com aquelas já sépias fotos que andam rolando por minhas pastas e gavetas: ando mais inchado e franzido nas medidas do corpo e das idéias... mas muito mais seguro.

08/08/08 23:48pm. Em casa.
DEPOIS

A arte, como as drogas, serve para que criemos coragem diante das paredes prosaicas do cotidiano, que nos circuscrevem ao tédio biológico-econômico de nascer, reproduzir, trabalhar e morrer.

Quando era garoto, tinha uns tios e muitos colegas estúpidos (coitados, não tinham culpa) que me diziam: "Livros? Para quê? Livros e filmes fazem a gente se encher de ilusões."

E não é que acertavam na mosca, os putos?! Hoje vejo que devo ficar fulo da cara é comigo mesmo: por não ter dado ouvidos ao que diziam. Eu me indignava com eles e ia para a cama sempre com uma pontinha de dúvida quanto aos benefícios das minhas leituras e da grande presença do cinema na minha vida - e corria feliz, no dia seguinte, para bater o cartão ponto no meu emprego seguro e chato, mas real, concretíssimo!

Se tivesse prestado mais atenção a essa merda que diziam, hoje eu seria de verdade um produtivo escritor ou um cineasta. Teria empregado todo o meu tempo útil na leitura e no estudo do cinema, pois a formação profissional do artista se dá na infância e na juventude, quando ele consegue obter melhores resultados no adestramento do olhar, das mãos, da paciência, da disciplina, da lábia e do ímpeto necessários para arrancar do barro da vida uns adões-e-evas.

Pois... eu vacilei porque dei ouvidos à gente "normal" que me cercava. Perdi muito tempo desvencilhando-me dos sonhos.

Só porque homens e mulheres, amedrontados ante a idéia da morte solitária, põem-se a montar bases domésticas e a fazer filhos para que cuidem deles na velhice, somos todos obrigados a fazer o mesmo?

Bem, procriar e viver em grupos pra afugentar o medo é coisa de gente, do bicho humano. Mas, sonhar, também. Nietzsche, também. Renato...

Eu não temo a solidão: embora tenha medo do futuro, sei de certeza que o futuro não é já. E, quando for, terei tempo e razão pruns lamentinhos - que talvez minimizem aquele previsível tédio de já não ter mais como interferir em porra nenhuma no mundo dos vivos.

 

09/08/08 14:38pm. Enquanto o almoço começa a cheirar...
DAY AFTER

Eu trazia comigo uma grande frustração por não haver conhecido pessoalmente Renato Russo - nem mesmo num show. Fui por duas vezes a São Paulo para, através de amigos, chegar até ele com umas letras que havia escrito pensando na sua voz e no jeito de cantar. (Claro, meu bom senso impediu-me de cumprir a idéia ingênua, sobretudo depois que descobri que ele prometera jamais botar os pés em Santa Catarina. Falava sério, será...?)

Pois bem, o trovador solitário voltou. Eu nem conheço Bruno Gomlevsky. O que vi no palco do JM foi uma performance do autêntico Renato Russo, que, vivinho-da-silva, resolveu enfim visitar nosso estado pra matar minha saudade.

domingo, 3 de agosto de 2008

Um poema que fiz para minha mãe (2002)

Izabel Cabral Borges, minha mãe (1929-2003)

 

Saudades de mim

Borges de Garuva

 

Quanta vez tenho saudade de mim mesma,

do que fui, do que senti,

de certos cheiros que os ventos das estações traziam

– as manhãs limpinhas dos invernos,

– o brilho gostoso das tardes do outono,

– o rastro da lua nos mares do verão,

– esses cheiros e ventos que a primavera esbanja.

 

Cada vez uma saudade se guardou aqui:


um cheiro, um som, um raio de luz, um gesto,


aquela palavra dita num preciso tom de voz,


um não, um sim...


 

adeus...


meu bem...


 

Sou, portanto,


inteiramente,


lembranças


de quando chorei, de quando cantei,


de quando disse "meu filho", certo dia,


e um grande sorriso se abriu para os meus olhos...


 

Quando sinto saudade de mim,


do que fui,


do que vivi,


respiro fundo,


olho melhor à minha volta,


olho dentro dos olhos das coisas,


observo este preciso instante que estou vivendo,


atenta para o que se passa em mim.


 

Porque sei que no futuro vou sentir


saudade


do que sou


agora


segunda-feira, 28 de julho de 2008

Por falar em hortelã...

 

Meu caso com as hortelãs lembrou-me - de longe, é verdade, mas calha mencionar - o caso dos jornais com os cronistas.

Estes são como as hortelãs em relação aos jornais. Somem, desaparecem, ou, quando aparecem, vêm regateando um preço muito alto pelo seu trabalho. Então, os jornais, por assim dizer, abrem as pernas e começam a aceitar crônicas de qualquer um. Basta que rabisque um certo número adequado de caracteres pro sujeito ou a sujeita ganhar espaço privilegiado no jornal.

Em pouco tempo, as publicações começam a pulular de subcronistas e de subcrônicas - uma praga de cura muito lenta e gradual, capaz de obscurecer inclusive aqueles pouquíssimos que, quando escrevem, mais do que à inspiração recorrem à reflexão - sem perder de vista a noção de que a crônica é, afinal de contas, literatura (ainda que homeopaticamente ministrada em mínimas doses diárias).

Estarei exagerando? Sei lá... De minha parte, posso contar nos dedos os cronistas cuja leitura regularmente me dão prazer nos dois jornais locais de que sou assinante: José Antônio Baço, Arnaldo Jabor, Carlos Schroeder, Rubens da Cunha, Jurandyr Arruda... Se de outros me esqueci, lembrarei depois, durante a semana, à medida que for lendo os seus textos. Mas, são poucos, não?

O dengo das minhas hortelãs.

 

Já uma vez li que, bem olhado o processo, parece que foi o trigo que domesticou a humanidade e não vice-versa, como pensamos. Pois, conhecendo, como conheço, as plantas do meu quintal, posso afirmar categoricamente que muitas delas sobrevivem porque são dengosas. Mandam em mim, as canalhinhas. Usam-me.

Assim se passa com as minhar hortelãs: quando estão com preguiça de batalharem pela própria sobrevivência, minguam, ficam ali atarracadinhas, até que eu as trago para dentro de casa e as fico paparicando. Reparto-as em várias mudas, espalho-as por todo o quintal. Então, subitcamente, elas vicejam, exuberantes... e excessivamente, a ponto de ser tornarem pragas que demoro meses para conter.

domingo, 27 de julho de 2008

Meus bebês tamarindeiros.

 

Dois tamarindeiros nasceram no meu quintal. Agora, será aguardar o momento de mudá-los para as chácaras dos manos Chico e Nâni. (Quando poderemos saborear os primeiros tamarindos?)

sábado, 26 de julho de 2008

Esta coisa escandalosa floresceu no meu jardim há mais de uma semana e continua assim - como nesta foto de duas horas atrás - exuberante.

Sobre cotas na universidade pública.

 

A carta da Lola de hoje, em A Notícia, é exemplo de como a defesa das cotas raciais na universidade brasileira não precisa de muita argumentação complexa ou política: trata-se apenas de juntar as pontas dos fios e manter tanto a lucidez quanto o bom senso (ou, pelo menos, um certo senso de justiça). Claro, uma pitadinha de ironia cai aqui muito bem, e Lola sabe fazer isto na dose certa.

Particularmente, penso que as cotas nem devem ser discutidas. Têm é de ser repeitadas, inclusive pelos funcionários da justiça, que andam emotivos demais, sucumbindo com facilidade às choradeiras dos semi-abastados, abastados e super-abastados, que querem cotas não para negros ou egressos do ensino público e sim para seus boyzinhos e peruinhas vagais.

Estes, que passam o período do ensino médio matando tempo com carrões e bebedeiras, quando são empurrados para a universidade, não conseguem acesso – e é natural que assim seja. Então, empurram os pais para brigar (em geral arrotando prepotência) pelo seu direito de atravancar a universidade pública com os miolos amolecidos pelas farras.

Tranqüila tarde de sábado nos fundos de casa.

 

video

Tenho um pequeno terraço nos fundos da casa. Aí se pode tomar sol e vento, apreciando as redondezas. Geralmente é pacífico, como se pode ver por este vídeo circular, tomado num momento em que já se acalmavam as vozes da vizinhança. ;~)

Brincadeira: esse dia foi exceção. Vivo num canto tranqüilo do Aventureiro, próximo a este morro que abriga hoje o Parque Morro do Finder - área de preservação, apesar dos predadores, que persistem.

O lugar é calmo. O povo, tranqüilo e simpático. As crianças não brincam o dia inteiro e os carros de som zoam mais nas manhãs dos dias úteis. Vez que outra, um vizinho ou nós aparamos a grama. Os cães ladram apenas o suficiente. Os garotos lavam os carros nos sábados pela manhã, que é quando sabemos da música de que gostam.

Tenho um mensageiro dos ventos. A folhagem farfalha na brisa que vem do mar. E há pássaros.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

O peso da consciência.

Em O processo, a dança reivindica para si
o direito ao drama

Leio isto no programa do espetáculo que acabo de ver na Mostra Contemporânea do XXVI Festival de Dança de Joinville. Coreografia cíclica, limpa (embora de difícil execução), organizada como uma grande fuga a 5 vozes, cujo tema (a culpa) vai passando de uma a uma ao longo do trabalho e acaba aos poucos produzindo no espectador a sensação opressiva que se pode sentir na leitura da obra de Kafka.

Para minha sensibilidade, O processo, da Cia. Borelli, é um dos dois mais importantes espetáculos apresentados na mostra de 2008.

Não tenho muita certeza do que afirmo (é uma opinião apressada, como dizia há pouco a uma repórter), mas me parece que a mostra tem pecado por trazer ao palco trabalhos experimentais em processo (no sentido de que ainda não chegaram aonde se propõem chegar), quando implicitamente o que o público procura, sobretudo num festival competitivo, é produto bem acabado. (Aqui me coloco como o público que a organização tem em mente, conforme deduzo do que a assessoria de imprensa costuma divulgar.)

A primeira referência que ouvi sobre a peça enquadrava-a como dança-teatro. Mas, o que a epígrafe parece querer dizer é outra coisa: quando a dança reivindica o direito ao drama, não está deixando de ser dança para ser teatro - o drama é uma das propriedades possíveis da dança. Parece paradoxal que, equanto o teatro começa a querer fugir do drama, a dança queira apropriar-se dele por direito.

Mas, acho que entendo o Sandro: a grande dança - aquela consagrada pelo tempo, tornada clássica (como o Don Quixote que vimos hoje) - está na quase sua totalidade vinculada ao drama, nasce do drama, exprime-se como drama. Não necessariamente como narrativa, como um processo que, passando pelo conflito se resolve de algum modo em final feliz ou tragédia, mas como algo que se desenrola no tempo, que quer ser ou significar alguma coisa para além da própria dança. É legítimo, portanto, não pensar dança apenas como o resultado estético da exploração das possibilidades gestuais, rítmicas e expressivas do corpo, ou disso que chamam de body mnotion (pra que isto, se podemos dizer em português?!) etc. É legítimo pensar que, embora seja oportuno e necessário que os artistas da dança experimentem, pesquisem, explorem, tentem caminhos, também se dêem ao trabalho de ir mais além, isto é, de aproveitar as descobertas e os materiais colhidos na pesquisa para produzir uma obra ou um evento capaz de alcançar também mais alguém para além daqueles que vivem diretamente envolvidos com os mistérios da própria dança. Em palavras mais simples: olhar para o próprio umbigo durante a pesquisa e para a humanidade na hora da criação.

[Como o cansaço bateu, vou dormir. Amanhã continuo.]

sábado, 19 de julho de 2008

Susan Sontag: extratos de Contra a interpretação, 1.

 

Seguem aqui umas passagens que assinalei na leitura que fiz em 1988 do livro de Susan Sontag. Como não tenho todo o tempo do mundo (principalmente agora, durante o XXVI Festival de Dança de Joinville, vou começar pelo final do livro e, aos poucos, acrescentarei as dos outros capítulos.

 
Uma cultura e a nova sensibilidade1

  • A arte não progride no sentido da ciência e da tecnologia. (340)
  • O que testemunhamos não é tanto um conflito de culturas quanto a criação de um novo tipo de sensibilidade (potencialmente unitário). (341)
  • A arte hoje é um novo tipo de instrumento, um instrumento para modificar a consciência e organizar novos modos de sensibilidade. (341)
  • (...) os artistas tiveram de se tornar estetas conscientes: desafiando continuamente seus recursos, seus materiais, seus métodos (341)
  • Na realidade, não pode haver divórcio entre ciência e tecnologia, de um lado, e arte, do outro, assim como não pode haver divórcio entre a arte e as formas da vida social. (344)
  • Tipicamente, apenas certos artistas em dada época "possuem os recursos e a temeridade de viver em contato imediato com o ambiente de sua época. (...)" (341. A citação é de McLuhan.)
  • A nova sensibilidade entende a arte como extensão da vida. (345)
  • Ela [a arte] se tornou menos exagerada e o que sacrifica emtermos de explicitação discursiva ganha em precisão e força subliminar. (345)
  • (...) nós somos o que somos capazes de ver (ouvir, tocar, cheirar, sentir) inclusive mais forte e mais profundamente do que somos o conjunto das idéias que armazenamos em nossa cabeça. (345)
  • É [a grande obra de arte], antes de mais nada, um objeto que modifica nossa consciência e sensibilidade, alterando, ainda que ligeiramente, a composição do húmus que nutre todas as idéias e sentimentos específicos. (346)
  • (...) as novas linguagens faladas pela arte interessante do nosso tempo são frustrantes para as sensibilidades da maioria das pessoas instruídas. (349. Grifo meu.)
  • A nova sensibilidade é provocadoramente plurarista; voltada ao mesmo tempo para uma torturante seriedade e para o divertimento, a ironia e a nostalgia. (350)

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(1) SONTAG, Susan. Contra a interpetação. Porto Alegre: L&PM, 1987. p.338-350.[voltar]

A dança no conceito será sempre outra na cena?

 

M.E.I.O.: Reve(fe)rências. Sei que é imperdoável, mas cheguei atrasado para ver Reve(fe)rências, da M.E.I.O. Artistas Associados (Belo Horizonte), apresentado na segunda noite da Mostra de Dança Contemporânea, em Joinville. "Cinco minutos", disseram-me.

Primeiro contato com a obra foi auditivo: a voz de Meredith Monk entoando uma de suas canções (de Gotham Lullaby, de Dolmen Music). E logo o olhar constata: no palco, a voz de Meredith está materializada nos movimentos dos três bailarinos da M.e.i.o. O encanto é imediato: o que vejo em cena é dança. Contemporânea.

Gostaria de não ter preguiça de fazer o exercício de discernir claramente o que vejo em cena e, ao mesmo tempo, entregar-me ao prazer próprio do espectador: deixar-me tocar pela obra, a tal ponto que as intenções dos seus criadores me alcançassem e produzissem aqueles efeitos que a generosidade do artista busca produzir.

Minha "tradição" como espectador de dança leva-me a ler a performance da M.e.i.o dentro de um dos caminhos do contemporâneo, a dança-teatro. Mas, pelo que leio da história desses bailarinos e do grupo, há algo mais aí: essa busca de realizar uma reflexão através da dança. Isto me fascina. E, por isso, aquela minha pergunta do título.

A verdade, agora, é que os três que vi ontem ficaram dançando em mim. Dormi com eles, sonhei com eles e, pela manhã, eles haviam, sim, produzido algo em mim, como aquelas leituras de Camus (ou como o Estorvo do Chico Buarque): enquanto lemos, parecem narrativas normais como tantas outras; aos poucos, porém, infiltram-se no nosso cotidiano e seguem conosco por dias a fio, alterando sutilmente nosso modo de ver.

Peter Lavratti já dançou com o Raça, o Cisne Negro e o Grupo Corpo. Foto raptada da WorldwideDanceUK. Thanks.Aí está! O trabalho da M.e.i.o. tem algo de existencialista. E, apesar de minha leitura relativamente incompetente, a obra me penetrou.

A partir de agora, tenho dois desafios como espectador de dança: por um lado, tentar calar dentro de mim, durante a performance, aquele velho vício de querer ler tudo, interpretar tudo, explicar tudo: há coisas, na arte, que ocorrem sem que precisemos saber exatamente como; por outro lado, encontrar um modo de ir reconhecendo os aspectos próprios do fazer da dança, o vocabulário, o uso da linguagem corporal, o trabalho por trás da obra (exatamente como faço no cinema, no teatro, na literatura: reconheço os procedimentos que podem ter dado origem à obra do ponto de vista de sua construção real.

Edson Beserra já dançou com a Quasar, a Cia. Débora Colker e o Grupo Corpo. Foto raptada da WorldwideDanceUK. Thanks. Na linha do segundo desafio, penso que, apesar da evidente experiência técnica e qualidade corporal dos bailarinos da M.e.i.o. e do bom gosto geral que marca as escolhas, parece faltar algo - uma falta que nasce, me parece, de um hermetismo (eu tinha escrito "inconsistência" - mas como poderia ousar dizer isto?!) do desenho coreográfico1. (Sei, estou falando se fosse um expert, mas não sou. Apenas não encontro agora outro caminho para formular o que estou pensando: parece-me faltar à obra uma espinha dorsal, um argumento que lhe dê organicidade. Há, sei, uma proposta que está explítica no programa e no release divulgado; há uma idéia geral que comandou a realização da obra e a partir da qual deveríamos fazer nossa leitura. Mas, não encontrei correspondência entre essa proposta e a dança viva que vi na cena. (E será que isto importa? E quanto importa?

Enfim, isto é apenas um registro. Estou determinado a superar a necessidade de interpretar2. Também quero aprender a contemplar sem a necessidade de me submeter aos efeitos fáceis das narrativas. Mas, é preciso um tempo.

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(1) Fiquei confuso e enquanto não obtiver melhor informação, fica este registro: na ficha técnica do programa da MDC leio: coreografia: Peter Lavratti e Claudia Lobo; no programa da base do FDC, lemos: as peças da coreógrafa belga Anne Teresa de Keersmaeker. De quem são, afinal, as coregrafias que vi em cena? [voltar]

(2) Talvez seja hora de reler Contra a interpretação, de Susan Sontag, leitura que me balançou as estruturas no início dos anos 80 e que, me parece agora, ainda é superválida. (V. próxima nota.) [voltar]

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Como se chamará a dança contemporânea quando ela já for extemporânea?

O grande circo mística - Foto de Tom Lisboa.

Começou ontem (17/07/2008, 20h), a Mostra de Dança Contemporânea do XXVI Festival de Dança de Joinville. O público mediano que o Teatro Juarez Machado recebeu deixa evidente que isto que o festival joinvilense define como "dança contemporânea" não atrai muita gente. Sobretudo, não atrai a maior parte de bailarinos e bailarinas presentes no evento. (Estes são apaixonados por coisas mais nitidamente recortadas: clássico, jazz, folclore, sapateado, dança de rua. Ponto final.)

Agora, dança contemporânea - o que é isto? Arrisco aqui uma opinião que, embora não seja de um estudioso da dança, também não nasce de puro e simples achismo, mas de toda uma experiência como espectador que gosta de pensar sobre o que vê na cena e das minhas leituras e conversas sobre esta maravilhosa e inesgotável manifestação artística e cultural.

Podemos entender dança contemporânea1 como:

  1. um conjunto de novas técnicas que, aos poucos, vêm também se consolidando em torno de linhas (Cuningham, Graham, Limón-Hamphey-Weidman, Laban, Alexander) que combinam elementos tais como alinhamento, centramento, contração, equilíbrio/desequilíbrio, conflito/emoção, gravidade, liberação, queda, recuperação, tensão/relaxamento, respiração, suspensão etc. - cada termo destes com suas variantes em conceito e tradução;
  2. o conjunto das obras criadas na atualidade com base na combinação das diferentes atitudes do nosso tempo em relação à expressão estética com o patrimônio acumulado dos vocabulários da dança - tanto dos novos, nascidos da aplicação das ditas técnicas contemporâneas, quanto do clássico, que, por oposição a esses "novos", imaginamos congelado no tempo, mas não: trata-se apenas, na minha visão de leigo, de uma espécie de "reserva de mercado" do meio profissional do balé tradicional, que pretende entender que o acervo de passos, posições e soluçõs coreográficas da dança clássica não podem mais sofrer transformações e nem devem variar jamais.

Qualquer que seja o viés por onde se queira enquadrar a dança contemporânea, sempre surgirão dificuldades para classificar (e/ou qualificar) os espetáculos criados no tempo presente - o que, me parece, é problema dos especialistas. Para nós, o público, os fruidores de dança em geral, a questão está na atitude com que nos colocamos diante do espetáculo, pois dessa atitude depende o maior ou menor proveito que poderemos ter da obra.

Hoje, vimos Luís Arrieta, que abriu a Mostra com seu Carnaval dos animais (música de Saint-Saëns). Depois, o Riscas mostrou o seu Escape. Bonitos ambos. Gosto mais do que propõe Arrieta, porque o trabalho do Riscas ainda está, do meu ponto de vista, em construção: tem coisa ali acontecendo apenas para dar tempo à duração da música, isto é: a coreografia, em alguns momentos, é apenas um esboço.

Mas, mesmo Arrieta, aqui, está colocado como que para legitimar a tendência redutiva em relação à contemporaneidade da dança que sinto no festival de Joinville (evidente já no fato de colocar, na mostra competitiva, a modalidade de dança contemporânea nas mesmas noites da dança de rua, quando se sabe que os públicos atraídos por estas formas são quase total e absolutamente diversos). Por que a mostra de dança contemporânea não pode abrir com um grande bailado contemporâneo do nível de O Grande Circo Místico2? Por que, enquanto o festival abre com um bailado completo do repertório clássico (O lago dos cisnes, do Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro) e tem ainda uma noite de gala com outro ballet completo do nosso Bolshoi (Dom Quixote), a mostra contemporânea tem de abrir com um solo e um espetáculo que requerem uma leitura de público mais habitué? Por que isto é próprio do contemporâneo? Não: é porque a organização parte de um pressuposto nascido do senso comum de que "o público não gosta de contemporâneo, então não vale a pena investir muito no contemporâneo".

Seremos, nesta mostra paralela, um público privilegiado? O contemporâneo está aberto a todos os conceitos e tende a tocar mais profundamente os espectadores abertos para os horrores e as maravilhas de sua própria época (estes turbulentos inícios do século XXI) - o que não quer dizer que deva justificar a posta em cena de laboratórios, exercícios preparatórios ou pirações terapêuticas particulares.

Penso que, em termos de dança, a atitude do espectador deva ser semelhante àquela com que encaramos a música contemporânea: embora sempre aberta à experimentação e à exploração de novas possibilidades, é preciso que a música seja música, isto é, que seja construída por meio da linguagem da música - não aquela das clássicas cadências V-I, IV-I etc., mas, através de novas soluções sonoras e novas resoluções harmônicas que dêem origem a um discurso musical intencional, coerente com uma gramática legível para o ouvinte ou o espectador.

Um dia, talvez, por insistência de coreógrafos e bailarinos que sonham com a possibilidade de combinar na cena os diversos idiomas que a dança explorou e construiu ao longo de sua história (articulados inclusive com os dialetos locais, como já estamos vendo acontecer no Bolshoi de Joinville), a Mostra de Dança Contemporânea do maior festival de dança do mundo ganhe o status que toda arte contemporânea merece: ela é criação de gente viva voltada para a sensibilidade do nosso tempo. ___________________________

(1) O respeito que tenho pela história não me permite admitir a designação impensada de "pós-contemporâneo", como há quem queira chamar as formas ainda mais recentes da dança. Pós-contemporâneo é uma idéia absurda e irresponsável.

(2) A remontagem de O Grande Circo Místico, do Ballet Guaíra, com coreografia de Luis Arrieta, apresentou-se em Joinville no festival de 2003.

domingo, 13 de julho de 2008

A REVI, um experimento de comunicação.

De 1992 a 2006 trabalhei como designer e programador da Rede Bonja (o provedor interno do Instituto Bom Jesus/Ielusc), que ajudei a criar, juntamente com Andrey Allage e uma série de colaboradores que, mais tarde, foram reunidos no Setor de Comunicação e Recursos Digitais, o Secord.

Em 1998, o professor Edelberto Behs, coordenador do Curso de Comunicação Social solicitou-me a criação de um espaço para que um grupo de alunos bolsistas pudesse exercitar o jornalismo digital, criando e publicando matérias sobre a vida cultural da cidade. Sérgio Murillo, então nosso professor, seria o coordenador do projeto.

Idealizei uma estrutura a que dei o nome de REVIsta Virtual, Primeira logomarca da Revi, que eu próprio desenhei em agosto de 98. que depois veio a ser a Revista eletrônica do Curso de Comunicação Social, que está prestes a comemorar, portanto, 10 anos e que vem se consolidando como um espaço para o exercício do webjornalismo e da leitura crítica da comunicação.

Mesmo tendo deixado a Rede Bonja em 2006, a Revi continua sendo um projeto que me fascina e para o qual, se pudesse, daria minha permanente colaboração. Mas, o que posso, no máximo, é fazer aqui e ali pequenas manutenções no sistema e torcer para que, adotando uma nova tecnologia de publicação, o veículo não se reduza apenas a um bloguezinho de opiniões achísticas, tal como tantos que borbulham profusamente por aí e que se consideram diferentes.

Recentemente, a Revi foi depredada por alguém familiarizado com o sistema de publicação, o que me levou a trabalhar com os scripts para inserir alguns dispositivos de segurança. Ao manipular as rotinas, comecei a perceber o quanto havia investido de dedicação em pesquisa, em planejamento das ferramentas, em tratamento das propostas que os diversos professores e bolsistas da Revista me apresentaram ao longo dos anos entre 2003 (quando assumi o projeto tecnológico da Revi) e 2006, quando saí do Secord.

Pensei, então, em escrever um pequeno ensaio sobre o projeto, procurando historiar o desenvolvimento tecnológico da Revi. O ensaio se encontra agora relativamente adiantado e vou pincelando aqui algumas das idéias que já reparti com pessoas ligadas ao projeto - professores e estudantes.

Além da memória e dos meus apontamentos pessoais, estou utilizando para a elaboração deste texto os documentos que tenho armazenados. Trata-se de um acervo que vem crescendo desde a primeira forma da Revi. A partir de 2002, adotei a prática de guardar também as matérias publicadas: são 4.824 títulos distintos só de 2003 para cá - um acervo que registra aspectos importantes da história do Instituto e (por que não?) da cidade.)

O sistema de gerenciamento de matérias da Revi - que designei como Sigmat - nasceu de uma colaboração pessoal minha para o Curso de Comunicação Social. O que era para ser apenas um diretório em que o grupo pudesse depositar os seus arquivos, virou já em 1998 uma publicação, com campos automáticos, tickers, editorias distintas etc. Na época, era tudo HTML e Javascript, apenas. Quando conheci mais de perto a dobradinha PHP/MySQL eu já dominava as Cascading Style Sheets e estava de olho na XML. Abriu-se então o caminho para o Sigmat, que foi construído durante os anos de 2003 a 2006 e que vou deixar definitivamente incompleto por não ter mais disponibilidade para a programação.

Passei dias e noites - até madrugadas (a maior parte fora do expediente, nos fins de semana, na casa de praia em tempo de férias, porque não podia interromper as outras atividades do Secord) - trabalhando nos cerca de 400 arquivos de rotinas e nas suas quase 8.000 de linhas de código necessárias para exibir telas, processar registros e gerenciar o banco de dados da publicação, que compreende 164 campos.

Naquela época, não pensei demasiadamente em segurança, porque estava criando uma ferramenta provisória para o exercício do jornalismo digital (tanto quanto possível dentro dos princípios do webjornalismo, que estava nascendo e que pesquisei bastante) - e uma ferramenta que deveria ser usada, experimentada e desenvolvida por estudantes e professores, no âmbito da produção acadêmica. (Não pensei, então, em vândalos e invasores, mas tudo bem, agora.)

Meu sistema, que foi construído meio "a machado", porque veio sendo elaborado ao longo do processo, com a Revi sempre on line, está destinado desde 2006 a retirar-se para dar lugar a um outro mais ágil, mais seguro, mais robusto, mais juvenil, assim que apareça alguém no grupo da Revi interessado também pelas tecnologias de armazenamento, processamento, indexação, resgate e exibição dos conteúdos digitais e por práticas mais avançadas do webjornalismo.

Os grandes jornais que conheço e que tenho freqüentado ocasionalmente desde os meus primeiros momentos no modo gráfico da internet (lá por 1995) - A Notícia, Le Monde, La Nación, Folha, New York Times, El Espectador -, são todos praticamente a mesma coisa, sempre: uma tela com um timbre, alguns menus em cima, à esquerda e/ou à direita, e áreas (ou quadrantes ou editorias) em que aparecem - sempre em dimensões, cores e efeitos padronizados e selecionáveis a partir do dispositivio de editoração - os leads das matérias e uma que outra foto. A diagramação é radicalmente automática. Os editores geralmente determinam apenas o status que a matéria deve ter, porque, segundo seu status, a matéria vai automaticamente aparecer, com um certo tratamento visual, numa região ou noutra da capa do jornal (capa, aqui, usada como o home ou "casa" no home page do inglês).

Claro, existe também um jornalismo digital mais plástico, mais artístico, que tem produzido obras incríveis. Mas, então já se trata de criações de gente ligada à publicidade ou às artes visuais e que são em geral trabalhos autorais, pesados, que requerem quase sempre tecnologias proprietárias e bandas cada vez mais largas para sua operacionalização.

Mas, o debate sobre o que seja ou não o webjornalismo e suas práticas e possibilidades já é assunto do Curso de Comunicação Social e do próprio grupo da Revi, que vem aos poucos experimentando possibilidades e desenhando na prática uma história que está sendo escrita também em todos os outros veículos digitais do planeta.

O meu artigo focará apenas o suporte digital da Revi e sua evolução a partir de possibilidades tecnológicas e de demandas apresentadas pelos diversos grupos de professoes e bolsistas que por ela passaram desde 1998. Tal suporte (constituído basicamente por um alimentador de matérias ou de conteúdos e um diagramador de capas), permite a decupagem dos conteúdos em elementos que podem ser armazenados separadamente de suas propriedades visuais - princípio dos documentos inteligentes e portáveis, cuja implementação tem sido possível pela combinação de tecnologias como a HTML, o JavaScript, a XML, o CSSL, o PHP, o MySQL e uma série de outras - todas abertas, públicas, genéricas e fruto de criação coletiva1.

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(1) Visite a base do W3C (The World Wide Web Consortium), em http://www.w3.org/.
Gosto de fotografar nuvens quando ando pelo céu.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Desaparecimento provisório

Não se preocupem, amig@s: o fato de estar tão paradinho este meu blog não significa que sumi ou que abandonei o interesse pelas coisas e o gosto pelas escrituras. Projetos mais urgentes chamam-me e, por outro lado, a falta do hábito de escrever regularmente para a rede me afasta deste canal. (Pela manhã, em vez de escrever, leio os jornais enquanto como as frutas.) Aos poucos, aprendo. Enquanto isto, observo e/ou produzo:
  • a negociata franco-ianque para a "libertação" do cabo-eleitoral (ou seria caba?) Ingrid Bettancourt;
  • um desconforto indefinível em relação a temas sobre os quais tenho a impressão de que já tive mais clareza (a Amazônia, os índios brasileiros, o patrimônio histórico, a segurança);
  • as eleições que se avizinham;
  • a coleção de crônica da Cena 5, enfim chegando à sua forma final;
  • a expectativa em relação aos (novos) parques da cidade;
  • a Casa Brasil Joinville/Sul, que me fascina e cuja operacionalização está sendo um desafio;
  • a Revi, que passa por uma revisão de projeto e de tecnologia;
  • o sonho da fundação que será mantenedora do Centro Cultural Deutsche Schule e que vai contribuir para a vida cultural e educacional de Joinville;
  • projetos do Compassolivre e da Metamorfose Cia. Cênica;
  • a Acinej que se acende nas mãos de Alceu Bett e outros colaboradores;
  • a irritação contra o entregador de A Notícia, que joga quase todos os dias o jornal sobre minhas plantas (e, se eu estiver passando por ali, contra a minha cabeça)... deve ser de raiva por ter de acordar tão cedo pra me entregar o exemplar diário);
  • umas saudades de Caroline Liza, que está em Perugia, colaborando no Umbria Jazz, onde se apresentarão, entre outras maravilhas, Caetano Veloso e Cassandra Wilson.
  • o Festival de Dança que começa a esquentar a expectativa;
  • uma irritação cheia de enfado em relação à PNL e suas derivações;
  • etc.
  • etc. E assim caminho eu com a humanidade. Volte. E, se bater a inspiração ou a saudade, m' escreva!

domingo, 4 de maio de 2008

Sinais de vida aqui no BGlog.

Pois é, amigos, pra que não pensem que apaguei, antecipo aqui uma notícia que talvez possa interessar aos meus raros e ocasionais leitores: o Outono que se pronuncia e o ano que avança já pras férias de julho me convidam a escrever e os primeiros vestígios virão a público em breve. Enquanto isso, vou dando uns retoques em dois de meus trabalhos que sairão à luz ainda em 2008: o texto dramático em versos Ao velho violinista (que escrevei em 2004 e foi lido pela primeira vez a convite de Nando Moraes na Sala Antonin Artaud, na Univille) e A guerra da lua (meu primeiro romance - na verdade, uma novelinha tríplice ou um conto que se desdobra num tríptico -, que já completou 12 anos e que ninguém leu ainda porque ficou abandonado nas minhas gavetas!). Mas, sinto que não há pressa de nada. Os ciclos da vida têm o seu tempo e o mundo pode passar tranqüilamente sem a minha literatura. Vocês, eu sei, não podem ;)

domingo, 27 de janeiro de 2008

Coisas que vão desaparecer... (I)

Enxaimel na estrada Dona Francisca
Alambique no Cubatão

Casa de madeira remanescente na esquina da
Rua Tuiuti com a Santos Dumont
Aventureiro - Joinville, SC

Coisas que vão desaparecer
(proposta para um ensaio fotográfico)

Almocei, li, descansei. O sol voltou. Está quente.

Vou sair rumo aos rios ao pé da Serra do Mar. Aproveitarei para pôr em prática a idéia que me ocorreu na última sexta-feira – fotografar coisas que vão desaparecer: uma casa de madeira na esquina da Tuiuti com a Santos Dumont; um velho paiol que há muitos anos abriga um alambique; o verde já quase dourado das arrozeiras etc.

À noite, compartilho as fotos aqui.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Ando às voltas com a leitura de duas obras – Carta a uma nação cristã, de Sam Harris, e Deus, um delírio, de Richard Dawkins –, ambas voltadas para o problema das religiões como terrenos propícios aos fundamentalismos que nos afastam cada vez mais vertiginosamente da possibilidade de um mundo mais pacífico e menos propício ao sofrimento. Quero aqui pontuar apenas uma das numerosas preocupações que movem Sam Harris em sua Carta a uma nação cristã (que é uma resposta aos leitores de seu livro anterior, O fim da fé):

"(...) apenas 12% dos americanos (*) acreditam que a vida na Terra evoluiu atravéSam Harriss de um processo natural, sem a interferência de uma divindade. Para 31%, a evolução foi ´guiada por Deus´. (...) 53% dos americanos são, na verdade, criacionistas. Isto significa que, apesar de um século inteiro de descobertas científicas que atestam como é antiga a vida na Terra, e mais antigo ainda o nosso planeta, mais da metade da população americana acredita que o cosmos inteiro foi criado há 6 mil anos. Diga-se de passagem que mil anos antes disso os sumérios já tinham inventado a cola. Os que têm o poder de eleger presidentes, deputados e senadores – e muitos dos que são eleitos – acreditam que os dinossauros sobreviveram aos pares na arca de Noé, que a luz das galáxias distantes foi criada da mesma forma como a Terra e que os primeiros membmros da nossa espécie foram modelados a partir do barro e do hálito divino, em um jardim com uma cobra falante, pela mão de um Deus invisível.

Entre os países desenvolvidos, os Estados Unidos estão sozinhos ao adotar estas convicções. De fato, tenho a dolorosa consciência de que meu país hoje parece, como em nenhum outro momento da sua história, um gigante belicoso, desengonçado e mentalmente obtuso. Qualquer pessoa que se preocupe com o destino da civilização faria bem em reconhecer que a combinação de um grande poder com uma grande estupidez é simplesmente aterrorizante, até para os amigos. (**)

Embora – pelas limitações próprias de todos os humanos no sentido de nossa incapacidade de abarcarmos toda a vastidão da realidade com um conhecimento preciso e final - possam Harris e Dawkins nem sempre referir-se a tudo com o mesmo grau de lucidez, o objetivo principal com que se colocaram em público com obras tão polêmicas é irretocável: embora não definitivas, são contribuições respeitáveis para que um pensamento mais livre encontre espaço junto aos leitores em geral.
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(*) Harris está falando dos habitantes dos EUA e não de nós, que também somos americanos, mas aqui do Sul.
(**) HARRIS, Sam. Carta a uma nação cristã. São Paulo : Companhia das Letras, 2007. p. 15-16).