domingo, 29 de dezembro de 2013

Corredeira para meditar.

Aqui está um videozinho que produzi para me dar umas pausas de vez em quando. A imagem é de baixa qualidade – fiz com minha Sony DSC-H5 e o maltratei um pouquinho na edição e na compactação. Mas, se você semicerrar os olhos e prestar atenção à algazarra dos grilos, das andorinhas e dos outros pássaros, com certeza vai ter a impressão de estar à beira d'água Bom proveito.

sábado, 16 de novembro de 2013

Os minutos.

video
Em 2004, pedi em prestada uma câmera VHS do produor Luciano Cavicchiolli, meu amigo, para fazer uns estudos em Figueira do Pontal, onde passava o verão. Uma das brincadeiras que fiz então foi a gravação de alguns textos meus, com a ajuda de Euson Cardoso de Melo na câmera . As imagens envelheceram nas fitas e foram, há cerca de 3 anos, digitalizadas. Mas continuaram nas gavetas. Agora, fiz esta ediçãozinha para ver no que dava e deu nisto. Gostei da experiência e vou partir para outras, mais cuidadosas, começando por refazer "Os minutos" em HD.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

TEMPO DE POUSIO ENQUANTO TENTO TOMAR PÉ NO MAR EM FÚRIA DO MEU PRIMEIRO ROMANCE

sábado, 27 de abril de 2013

Impressões sobre o cante alentejano

[Texto ainda em construção. Será apresentado num evento literário em Alcáçovas, na semana que vem.]


De passagem pelo Alentejo, vivi em Évora, nas comemorações da Revolução dos Cravos, uma emoção memorável: shows, fogos de artifício à meia-noite, banda, a enorme praça lotadíssima e a multidão toda muita gente portando cravos vermelhos entoando "Grândola, vila morena", o hino que o povo cantou na noite de 24 para 25 de abril de 1974, quando a ditadura de Salazar foi derrubada sem necessidade de disparar um tiro.
 
O próprio hino parece um cante alentejano. Depois que o evento terminou, já após a uma da manhã, muita gente permanecia na praça em animados círculos de conversa e... do meio daquela gente toda, ergueu-se a voz de um coro entoando cantes, vários, lindos, emocionados. O cante lembra um certo tipo de música brasileira tradicional que já traz na melodia uma espécie de tristeza que nos deixa enternecidos... a velha moda de viola, por exemplo, mas entoada em coro, com um solo puxando a melodia.
Eu trazia, de leituras e de vídeos capturados na internet, uma ideia vaga do cante e de sua prática como uma tradição alentejana, mas isso estava muito distante da viva emoção que senti ouvindo os cantes ao vivo e espontaneamente entoados nessa madrugada na praça do Giraldo. A cada nova toada, mais crescia o número de participantes e mais poderoso ficava o cante.
Por isso, decidi estender por mais uns dias minha passagem pelo Alentejo e na tarde do dia 25 vim a Alcáçovas assistir ao Cante da Terra, oportunidade em que pude ouvir quatro dos grupos tradicionais de Alcáçovas e de Viana do Alentejo. O Cante da Terra aconteceu ao fim da tarde do 25 de abril no Jardim Público, simultâneo a evento semelhante e paralelo em Viana. Aqui e lá, da mesma forma, com os convidados se apresentando por último , cantaram dois corais tradicionais de Alcáçovas e dois de Viana.
Infelizmente, como vejo ocorrer no Brasil e, por notícias, em outros locais do mundo, parece haver uma cisão no cultivo das tradições entre as gerações mais jovens e as veteranas, o que se refletiu no público que compareceu ao evento: os próprios cantadores e alguns dos mais velhos do lugar. Mesmo assim, era bastante gente para uma população tão pequena como a desta freguesia do distrito de Évora.

A tarde era apetecível: sol, brisa tranquila, pássaros alegres (há por ali uma velha palmeira sobre a qual uma cegonha construiu seu ninho); todos pareciam felizes afinal era feriado e a temperatura estava gostosamente amena em relação ao frio pesado que faz no inverno e ao tórrido calor do verão alentejano. (Soube hoje que o verde e a pujância dos campos floridos são efêmeros: duram menos de um mês, normalmente, período que vem sendo ampliado após a construção, a 50km daqui, do segundo maior lago artificial da Europa a barragem de Alqueva, no rio Guadiana).

Depois de gravar todas as apresentações para estudo futuro das letras e das melodias e também para dar veracidade aos tipos humanos do romance que estou a escrever (e que me trouxe para cá) e cujo personagem central nasce em Alcáçovas no ano de 1470 fui ao Quiosque da Praça, onde alguns rapazes brincavam com o cante, em versões que pareciam escandalizar a proprietária do lugar.

Um dos puxadores era um trabalhador do campo que eu já havia encontrado na véspera, numa tasca da freguesia, e que, por feliz coincidência, chama-se Pedro, como o meu personagem, cuja construção ficou definitivamente contagiada pelo perfil deste tosquiador de ovelhas do século XXI. As corruptelas que fazia do cante alentejano (usando como referência, entre outras, o Grândola, vila morena) ou as brincadeiras com textos infantis ou mais ou menos malcriados da música popular, mais a imitação dos trejeitos próprios do modo de entoar o cante me fizeram rir e contemplar brevemente a realidade e as potencialidades desse patrimônio musical do Alentejo) também na sua espontaneidade tão aberta à irreverência, como toda boa tradição da música popular.

Enfim, a impressão geral que me ficou do cante até o momento é dessa combinação deliciosa entre a força de suas raízes tradicionais plantadas na Idade Média e sua conexão profunda com a terra alentejana viva de hoje, com a vida no campo e na casa e com as mazelas que o país está vivendo, vítima dessa estúpida roleta universal que é o mercado financeiro, e do qual, como o Brasil anterior ao governo popular iniciado com Lula em 2003, parece não conseguir escapar. Neste sentido, o cante é revolucionário, é sério, é triste mas de uma tristeza que beira o bom espírito de liberdade da anarquia como bandeira do bem-viver coletivo e musicalmente rico, capaz de abrigar e promover tanto o gosto pelo canto coletivo quanto servir de campo de expressão para saborosíssimas particularidades vocais e para a capacidade de improviso dos indivíduos. O cante é, assim, uma forma popular de arte uma tradição musical que sobreviveu às tentativas de filtragem e achatamento desde os anos 30-40 da ditadura de Salazar que, como nos vinte anos da ditadura brasileira, não queria ouvir os lamentos do povo, porque lhe interessava mostrar ao próprio país e ao mundo uma realidade pujante e feliz, que, no entanto, era falsa.

O cante é, enfim, uma expressão do patrimônio cultural em que o povo do Alentejo, ao mesmo tempo, conta cantando suas dificuldades e sofrimentos de todo dia e pede respeitosamente solução, mas não de forma resignada e sim como uma advertência que diz: estamos aqui a viver isto e pedimos ajuda, mas se ela não viver, em algum momento encontraremos nossa própria solução.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Um poema.

Finisterra

(Borges de Garuva, 2013)


Enfim,
aqui estou
no limiar do sentido,
face a face com a infinitude.

Vasto oceano de silêncio
se estende à minha frente,
lisa superfície contínua e sem horizontes.
Arrio as velas do meu barco.
Deixo-o deslizar mansinho
ao sabor do impulso da viagem
até que fiquem para trás
a última estrela,
a última frágil memória,
a última palavra...

Estou aqui e vejo.
Vejo com gratidão como chegou ao termo
a minha longa jornada.
Percebo, alegremente resignado, os meus limites:
sei que não posso aventurar-me além;
basta-me saber que faço parte da eternidade.

Penetro devagar a infinita e cintilante noite.
Banha-me a absoluta harmonia
de um acorde perene e inebriante
– baixo profundo sobre o qual repousam
trêmulas e delicadas cordas –
eco sutil da música longínqua das esferas.

Não tenho medo.
É meu porto seguro esta última praia do real.
Se me aventuro agora ao largo é porque sei
que em breve tornarei a pôr os pés
no solo confortável do meu ser.

Gozo esta ventura de ir derivando assim,
sem medo, o peito aberto,
os braços como asas flutuando nesta paz,
o olhar cheio de luz,
singrando este oceano de indizível beleza.

Transbordo de amor e gratidão:
alguns de meus iguais aqui também chegaram
e luminosos contemplam o limiar da plenitude.
Estamos seguros, sereníssimos,
neste remoto rincão do continente da vida
de onde podemos provar o gosto do silêncio absoluto,
da absoluta ausência de sentido.

Ah, mar Oceano!
Noite profunda em que mergulha meu ser.
Bruma obscura em que se calam todas as perguntas.
Fulgurante escuridão em que se dissipa toda angústia.

Em breve, voltaremos.
Outros de nós já regressaram e dançam,
reencantados com a vida.
Dançam embriagados pela alegria generosa
de haver estado aqui,
nos últimos limites do espaço e do tempo,
alcançado a última fronteira da cultura,
de onde cada qual pode a seu modo vislumbrar de leve
o Todo, o Deus, o Nada.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Uma crônica do meu baú

A formiguinha

Borges de Garuva

É a percepção da morte que nos vai tornando absolutos. Cada dia que passa é um passo a mais para a plenitude, se por plenitude considerarmos a dispersão final, no Reino Anárquico da Natureza, disto que agora somos. Por isso, exijo ser cremado quando se desfizer a aparente unidade que sou. Imagino-me zarpando para o firmamento convertido em partículas de fumaça, e depois espargido pelas chuvas sobre os campos agrícolas e sobre as últimas florestas, ou levado pelo vento para os jardins e os rios, para o mar e as montanhas da minha terra. Por outro lado, já que é tudo tão inexorável - é fundamental que cultivemos em nós uma ampla dose de paciência para com os frágeis componentes do organismo que somos. Cada um deles - cabeça, tronco, membros e suas partes constituintes - é também um coisa viva que se deteriora, ameaçada de súbita extinção, sensível como uma pluma no vento do tempo, transitória como o orgasmo cuja essência é precisamente se perder.

Talvez nem fosse inteiramente próprio, mas era sobre isto que conversávamos, sentados a uma das mesas da Confeitaria Colonial, junto às breves cortinas de rendas claras movidas agora pela brisa da manhã, um diante do outro - ele, meu amigo, e eu, seu idem.

Ele é um moço bonito, saudável, de olhar inquieto e riso franco. Podia ser meu filho, mas tive a sorte de não me tornar seu pai, embora me preocupe seu destino. Poderia ser meu aluno, mas já passou da fase escolar, embora se dirija a mim como se eu fosse professor.

Enquanto rolava nosso papo, e brincávamos nesse bom jogo de vida que é sentar-nos com alguém para comer e conversar, observei no terreno vermelho da toalha, ultrapassando a cantoneira bordada próxima do cotovelo direito de meu camarada, um serzinho móvel que se dirigia em linha reta para o centro da mesa.

Tratava-se, pelas evidências, de uma minúscula formiga-açucareira, voraz devoradora de doces. Passeava sozinha, talvez porque fosse domingo em Joinville: quem se postasse no terraço do Deville veria nossa bela cidade bordada de jardins, exalando saúde na paz das ruas ao longo das quais uns raros transeuntes solitários - minúsculos, vistos aqui de cima - perambulavam com esse prazer peculiar que sentimos quando caminhamos ao léu nas manhãs dos feriados. Fora assim, vagabundeando tranqüilos, que acabáramos na confeitaria.

Seguia a formiguinha pelas ondulações do linho, ora avançando, ora retrocedendo, voltando-se para cá ou para lá, sempre agitando no ar as duas anteninhas quase invisíveis, cujos movimentos lembravam os gestos que os cegos recentes fazem com os braços ou a bengala - tenteios no espaço à cata de vestígios que lhes indiquem as rotas. Para a formiguinha, um cheiro, de certo. Aonde ia dar sua pesquisa?

- O açucareiro? - murmurei.

O açucareiro estava perto de meu cotovelo esquerdo, precisamente na diagonal que o pequeno himenóptero vinha percorrendo.

A gente ficou ali, à espreita do que viria a acontecer, enquanto sobre a mesa jaziam as apetitosas iguarias - leite, café, pães, musses, manteiga, queijo, presunto, salames, cuca, bolo, torta de requeijão, além de nossas duas xícaras de café com leite, antes fumegantes e agora duas superfícies imóveis recobertas pela nata que tivera tempo de vir depositar-se à tona.

De repente e sem explicação, a formiguinha mudou de rumo. Não levantou uma bandeirinha, não apitou, não deu sinal nem nada. Apenas dirigiu-se para o prato de requeijão e por ali mesmo começou o trabalho de minerar seus néctares. E assim, abandonando o artrópode às suas escavações, a gente retomou o fio do nosso assunto, voltando, como se diz, à vaca fria.

Meu amigo estava naquele estágio da vida em que, conforme lhes seja propício, os adultos nos consideram crianças quando já queremos ser adultos, e adultos quando ainda sonhamos ser crianças. Dos conflitos que nascem neste território sem definições da primeira juventude, o mais terrível é aquele que nos põe diante da necessidade de adotarmos ou rejeitarmos para sempre os modelos explicatórios do universo e da vida que a educação simplorizante (familiar, eclesial, escolar) enterra no nosso crânio.

A comodidade depende disto: de adotarmos, voluntariamente ou por imposição, um sistema de referência e conduzirmos nossa vida segundo suas definições. Mas, a felicidade não tem precisamente a ver com a comodidade. Quando questionamos os modelos recebidos do passado, quando assumimos a rebeldia como um modo mais saudável de existir - negando a inexorabilidade do fim -, quando cada atitude começa a exigir de nós alguma reflexão, então nossa consciência passa a conhecer uma espécie de angústia. Esta angústia não é destrutiva: antes, é o alimento da poesia. De resolvê-la incansavelmente, todos os dias, é que nasce o sentido de viver.

Ele pigarreou. Parecia querer perguntar-me algo importante. Segurou a faca com a lâmina ao contrário, e com o cabo de madeira foi tecendo cabisbaixo um arabesco invisível em torno de seu pires.

De repente interrompeu o desenho, elevou para mim apenas os grandes olhos luminosos e assim deteve-se um instante, como se houvesse congelado.

- Afinal – me perguntou – tu achas que a vida tem sentido?

E amassou inadvertidamente com o cabo da faca a formiguinha.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Um conto meu, novinho em folha.

O cara que perdeu as asas

(Borges de Garuva)

Soube de um cara que, um dia, ao despertar, constatou que duas pequenas asas lhe haviam nascido sobre as omoplatas. Pior: em poucos minutos, notou também que elas cresciam a olhos vistos.

Irritado e incapaz de aparecer assim perante os chefes e os colegas de trabalho, decidiu procurar imediatamente uma solução, e se pôs, desesperado, a vasculhar na internet alguma substância própria para remoção de asas.

Reunindo depois os ingredientes requeridos, produziu uma pomada que, diligente e trabalhosamente, passou a aplicar várias vezes ao dia sobre os pedúnculos dos indesejados apêndices.

Certa manhã, constatando que as asas haviam caído, embrulhou-as num grande saco plástico, que despachou na coleta matinal do lixo urbano.

Então, lhe ocorreu que, nem por um único segundo, se dera ao trabalho de experimentar se as asas lhe poderiam ser úteis para voar! E, contemplando no céu azul a revoada tranquila dos urubus, pôs-se desconsolado a chorar, sentindo-se irremediavelmente mutilado.