domingo, 22 de maio de 2016

Nota para a imprensa e os blogueiros interessados em literatura.


Livro “Contos do Mar”, obra do joinvilense Borges de Garuva, começa a ser impresso

Projeto independente do escritor inclui também a obra de dramaturgia Teatro: cinco textos, lançada em fevereiro.

O autor e escritor joinvilense Borges de Garuva encaminhou nesta semana para impressão o livro “Contos do mar”, uma reunião de textos inéditos e que flertam com a amplitude das águas. Os contos foram produzidos entre 1995 e 2004 mas guardam valor simbólico e afetivo na carreira de Borges. “São obras de uma fase da minha literatura que estou deixando para trás, mas que não quero renegar, que acho merecedora de leitores, já que tem tido admiradores no contato corpo a corpo”, explica.

“Contos do mar” é uma seleção de sete narrativas: A caravela, Encontro no caramanchão, O baile do sonho, Carlo Rosso, Tangerinas, Por um triz e Faxina. Em “A caravela”, um garoto mistura realidade e fantasia durante uma tempestade de Ano Novo. Encontro no caraman-chão descreve as manobras executadas por um veranista curioso, que observa de vários ângulos a conversa promissora de dois rapazes num quiosque junto à praia. Durante O baile do sonho, o personagem se debate com sua dor de cotovelo em meio à euforia da dança. Em Carlo Rosso, depois de dar um corte na namorada, o adolescente Carlo passa um cortado tentando fazer as pazes. Pimenta na boca é pouco para quem rouba frutas verdolengas no pomar de Tangerinas. Por um triz narra a desventura de um pescador que, por descuido, deixa uma onda emborcar seu bote. Marcelina cuida da casa enquanto os urubus voam em círculos no céu – Para quê? é a pergunta de Faxina.
A obra tem lançamento previsto para o próximo dia 24/05, às 20h, na Cidadela Cultural. O evento contará com a participação do ator Robson Benta, numa sessão de leitura em parceria com o autor. O projeto é uma realização via Sistema Municipal de Desenvolvimento pela Cultura (Simdec) — Fundação Cultural / Prefeitura Municipal de Joinville — na modalidade Mecenato. 
Desde 2012, Borges dedica-se exclusivamente à literatura. Em fevereiro lançou o livro Teatro: cinco textos que, juntamente com Contos do mar, inaugura o projeto em que o autor vem se empenhando com vistas à difusão de seus trabalhos literários. A expectativa é a publicação de novas peças teatrais, contos e ensaios. Além disso, Borges conta com dois romances em construção, mas sem data para serem editados.
Desde o lançamento de seu primeiro livro — Cobaia — em 1994, a veiculação da produção literária de Borges de Garuva restringiu-se em grande parte ao meio digital e, esporadicamente, a jornais e revistas. Mas, seu acervo de textos é significativo e se encontra, em grande parte, inédito, ocasionalmente passando, como diz o autor, “pelo crivo da autocrítica, que muitas vezes os devolve impiedosamente às gavetas”. 
O autor 
O autor no lançamento de Teatro: cinco textos,
na Galeria 33.
O escritor e diretor de teatro Borges de Garuva reside há 45 anos em Joinville, onde foi professor (5 anos na Casa da Cultura e 23 anos no Bom Jesus/Ielusc), comunicador, cronista de A Notícia, três vezes conselheiro de cultura, gestor na Fundação Cultural e presidente do conselho administrativo do Instituto Festival de Dança. Em Curitiba, atuou como tradutor e cursou artes cênicas no Teatro Guaíra (1981-82) e na Faculdade de Artes do Paraná (2000-2001). Em 2016, concluiu na Unisul o curso de Produção em Multimídia Digital.
Escreveu 26 peças e montou 30 espetáculos teatrais, entre os quais Norigama, Tupac Amaru e Sahy dos Sonhos. Como ator, além do palco (O quebra-cabeçaTupac AmaruAcordesO princípio), teve passagens pelo cinema (curtas de Nivaldo Lopes, Fábio Porto, Diego Lara e Anderson Dresch; o longa Outra memória, de Chico Faganello) e pela TV.
Atuou como roteirista e apresentador do programa “Palco & Tela” (TV da Cidade, 12 edições produzidas por Henrique Tobal). Em 2012 produziu e apresentou 18 edições dos programas “Música Clássica” e “Música de Concerto” na Rádio Joinville Cultural, que foram reeditados em novo formato nas 20 edições do programa “Música Clássica na Joinville Cultural” em 2015.
Escreveu o texto dos dois livros fotográficos sobre a cidade editados por Syrta da Silveira: Joinville (1996) e Joinville 150 anos (2001). Em 2007, escreveu e editou A muitas vozes, obra comemorativa dos 80 anos do Bom Jesus/Ielusc. Publicou Cobaia (1994) e Teatro: cinco textos (2016).

quinta-feira, 5 de maio de 2016

"Contos do mar" foi pro forno.

Acabo de enviar para impressão o meu novo livro.

Contos do mar reúne sete histórias escritas entre 1995 e 2004. São contos de uma fase da minha literatura de que gosto muito e que tenho mesmo vontade de assinar como "a minha literatura". Pode ser que não seja, pois estamos sempre nos renovando e aprendendo e eu próprio ainda não me dei por totalmente satisfeito com o que escrevo.

Todos os verões,  eu descia para a praia e me dissolvia no mar das possibilidades imprevisíveis. Deixava-me boiar como a espuma, aderindo aqui e ali, ao sabor dos acontecimentos. Dessas flutuações entre pessoas, momentos e silêncios nasceram estes contos.

Em A caravela, um garoto mistura realidade e fantasia durante uma tempestade de Ano Novo. Encontro no caramanchão descreve as manobras executadas por um veranista curioso, que observa de vários ângulos a conversa promissora de dois rapazes num quiosque junto à praia. Durante O baile do sonho, o personagem se debate com sua dor de cotovelo em meio à euforia da dança. Em Carlo Rosso, depois de dar um corte na namorada, o adolescente Carlo passa um cortado tentando fazer as pazes. Pimenta na boca é pouco para quem rouba frutas verdolengas no pomar de Tangerinas. Por um triz narra a desventura de um pescador que, por descuido, deixa uma onda emborcar seu bote. Marcelina cuida da casa enquanto os urubus voam em círculos no céu – “Para quê?” é a pergunta de Faxina.

O livro foi viabilizado com recursos do Sistema Municipal de Cultural - Fundação Cultural / Prefeitura Municipal de Joinville, via Mecenato Municipal de 2014.

O lançamento de Contos do mar está previsto para o dia 24/05/2016, às 20h, no Galpão de Teatro da Ajote (Cidadela Cultural, em Joinville), oportunidade em que Robson Benta e eu faremos leitura animada de algumas passagens dos contos. 



Projeto de difusão da
minha produção literária

Contos do mar e Teatro: cinco textos (lançado em março) inauguram a decisão de oferecer ao público os meus trabalhos consolidados. Na esteira deles espero editar outras peças, contos e ensaios — alguns produzidos bem recentemente. Enquanto isso, vou finalizando com paciência o meu primeiro romance. :)

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O perfil no Facebook é minha sala de estar.

Passadas as eleições de 2014,
promulgo aqui a minha

NOVA POLÍTICA DE RELAÇÕES
NO FACEBOOK


Se na sala da minha casa alguém me injuria, eu o mando à caixa-prego. Se me chama de petralha, eu o mando à puta-que-pariu. Se me ofende com preconceitos (contra ateus, negros, nordestinos, homossexuais, mulheres, velhos, comunistas, o meu partido etc.), eu o expulso da minha presença: não preciso conviver com pessoas que condenam as minhas ideias, a democracia ou os direitos que levamos tantos a séculos a conquistar.

Considero o termo "amigo" – mesmo na balbúrdia do Facebook – como se referindo a alguém que me conhece ou alguém que admira o que sou ou o que penso. A raríssimas pessoas eu solicitei que me adicionassem como amigo. Confirmei praticamente todos os pedidos de amizade que me foram feitos, recusando apenas aqueles que, no seu primeiro post, eu já lia o fanatismo, o preconceito ou o ódio.

Considero meu perfil no Facebook como minha sala de estar. Nele posso reunir pessoas para ouvi-las e para mostrar-lhes o que penso e sinto. Meus posts no Facebook são, então, expressões do que penso e estão abertos aos amigos. Serão sumariamente banidos daqui, portanto, os rangeres-de-dentes, as manifestações de ódio, assim como posts que carreguem estertores inconsequentes, calúnias, histerias alienadas ou que combatam a democracia, as instituições da nossa República ou o meu partido. Conforme a gravidade do caso – ou na reincidência –, também os seus autores serão quicados para fora da minha sala.

Como preciso ler, escrever, cuidar do cachorro, plantar horta, caminhar, ouvir música, ver filmes e espetáculos – e muitas outras coisas mais –, não tenho tempo nem disposição para bater boca na rede. As conversas aqui devem ser ganchos para os bate-papos presenciais. E servem também para um contato inicial com cidadãos que cultivem mais ou menos as mesmas utopias que eu.

terça-feira, 20 de maio de 2014

O bicho que roeu meu Shakespeare.

Um cupim tentou aproveitar minha edição das obras completas de Shakespeare, publicada pela Oxford University Press em papel India com ilustrações (Londres, 1955).

Enfiou-se pela capa dura e, como sugere o formato irregular do buraco de entrada, deve ter tido algum trabalho para perfurar a percalina, pois já no cartão, no espelho e na folha de rosto, o furinho é perfeitamente circular.

Depois, atravessou persistente 440 das 1.165 páginas do livro, até alcançar a cena inicial da segunda parte de "King Henry the IV", onde deparou com uma lâmina em que se estampa a fotografia de John Vickers da cena IV do segundo ato da mesma peça, na montagem de 1945 da Old Vic Company. Ali, o animalzinho cansou de Shakespeare ou foi sumariamente defenestrado por minha amiga Eneida, que em 2012 deu uma geral na minha biblioteca para livrá-la das traças e dos cupins.

Felizmente, além do terceiro olho que cavou na testa de Rosalinda, na lâmina de "As you like it", percorrendo as páginas perfuradas pelo invasor faminto, constatei que em nenhuma delas o texto foi drasticamente danificado. O cupim que roeu meu Shakespeare era, afinal, um leitor faminto e respeitoso.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

A nossa Copa.

Ocorreu-me ontem, nas conversas de botequim, uma lembrança que vem a calhar.

Em todas as copas, de 1978 a 2002, fui um "anticopeiro" impertinente. Considerava alienante a unanimidade em torno do evento. Com raras exceções nos tempos de Colégio Bom Jesus (em que meus alunos me arrastavam para a festa), durante os jogos do Brasil eu saía caminhando no silêncio das ruas em vez de assistir às partidas pela televisão como praticamente TODOS faziam. As ruas ficavam lindamente desertas. A cidade mudava de cara. Do interior das casas vinham os ruídos da torcida: pelos sons, eu quase via a bola brasileira chegando ou se afastando do gol. Ouvi muito "Filho-da-puta!" gritado coletivamente por trás das janelas enfeitadas de verde amarelo. Eu me sentia sozinho como aquele Charlton Heston das sequências iniciais de "A última esperança de Terra" (1971), mas era bom.

A indignação começou mesmo na Copa de 1978 (quando o goleiro Quiroga do Peru, deixou passar 6 gols argentinos para eliminar da final o Brasil, que acabou como "campeão moral"). Em 1977, o insano general Ernesto Geisel havia lançado o seu Pacote de Abril para assegurar a manutenção da maioria no governo (esse tipo de coisa era própria não só da ditadura, como do governo neoliberal "democrático" de Fernando Henrique Cardoso, que promoveu alterações na Constituição a fim de assegurar um segundo mandato). O país estava realmente uma merda. O desemprego era grande e a rotatividade, maior ainda: os empresários festejavam, porque podiam renovar seus quadros de funcionários pagando cada vez menos pros trabalhadores (eu estava na Fundição Tupy e via isto acontecer). Abandonadas à própria sorte, as famílias agricultoras vendiam a preço de banana as suas terras para os grandes fazendeiros e vinham penar na cidade. Eu via isso. Convivi com isso. Em meio a isso, nós, que éramos contra a ditadura, queríamos discutir política... e o povo queria futebol!

Os anos passaram, conseguimos derrubar a ditadura (por sua própria incompetência e por nosso desejo de democracia) e o futebol permaneceu como objeto generalizado de culto pela maior parte dos brasileiros. Desde 1958, o sonho nacional de uma copa no Brasil (reafirmado por incontáveis pessoas ao longo dos meus últimos 50 anos) está prestes a realizar-se.

Compreendo a irritação contra a Copa da parte daqueles que querem continuar discutindo a realidade brasileira porque a querem melhor. Entendo que os movimentos sociais e os movimentos de esquerda manifestem sua indignação diante dos grandes investimentos no setor. Mas, é preciso recorrer aos dados, é preciso entender que turismo e lazer fazem parte do conjunto de campos de que um país precisa dar conta – o primeiro, porque assegura a circulação e a entrada de divisas; o segundo, porque promove o bem-estar e a saúde, reduzindo os custos do SUS. Além disso, os investimentos na Copa compreendem também investimentos na infra-estrutura (comunicação, estradas, portos, aeroportos), na circulação de bens, na formação de recursos humanos, na geração de empregos etc.

Entretanto, é preciso que as manifestações de esquerda não se confundam com as de direita. Atualmente, o movimento maior anti-copa não é de esquerda; é de direita. São as falanges neoliberais querendo retomar o poder que perderam em 2003. Para isso, precisam a qualquer custo e irresponsavelmente, desmoralizar o governo atual e impedir que a Copa ocorra competentemente, de modo a obterem nas eleições o voto da população frustrada. Mas, com isso, emporcalham impiedosamente a imagem do Brasil no mundo. Arrotam agora, contra o governo popular, o que deviam ter arrotado contra seus próprios governos incompetentes, na ditadura e depois. O Brasil e os brasileiros, entretanto, são muito melhores do que os neoliberais pensam.

O fato de que a gestão desse evento funcione segundo um modelo que essas próprias falanges querem adotar para o Brasil não neutraliza sua utilidade para nós. Não está em poder do Brasil consertar a FIFA e libertá-la de sua ganância, de suas deformações políticas ou racistas e de suas conexões mafiosas. Mas, o Brasil pode, sim, aproveitar esse evento para consertar um pouquinho a sua história presente. É isto, felizmente, que o governo – apesar de sua timidez e de seus senões – está fazendo: tornar a Copa um evento importante não para a FIFA, mas para o Brasil.

domingo, 4 de maio de 2014

A vertigem da infinitude.

Ontem, após o café da manhã, ocorreu-me a ideia de brincar um pouquinho com o tema da infinitude, por causa de uma dorzinha aguda que estava sentindo num dos dedos do pé, como se houvesse uma agulha dentro do calçado que o estivesse picando. Tirei o calçado e nada havia ali que eu pudesse extrair para aliviar a dor.

Fonte: http://uvs-model.com/UVS%20on%20unisonal%20evolution%20mechanism.htmAo caminhar para o carro e depois, ao andar com o Coisinha-de-Nada, meu cachorrio, a ligação entre a minha mente que sentia e o ponto exato do dedo que doía, pareceu-me de repente vertiginosamente enorme. Essas duas áreas do meu corpo, que normalmente sinto tão modesto em dimensões, pareciam separadas por trilhões de células organizadas em tecidos e nervos quilométricos, que realizavam essa transmissão e possibilitavam a consciência da picada impertinente.

O tema foi me ocupando e desdobrando-se em possibilidades, até conduzir-me a uma região que me parecia, novamente, os limites da totalidade – aqueles mesmos que pensei atingir num dos rituais com ayahuasca, de que participei em março do ano passado. Tentei forçar um pouco a barra e mergulhei na dor da vertigem, no desamparo de não poder meter na cabeça a porra da infinitude.

E então, o movimento seguinte: a  incontornável sensação de que não há mesmo nenhuma outra saída que não a mera resignação à pequena vida que vivemos – nós e as formiguinhas que esmaguei pela manhã ao limpar a mesa do café. Parece que o ser humano se meteu num labirinto que só poderia ter evitado lá atrás: o da consciência de si. Para sua desgraça, essa consciência não pode ultrapassar certas paragens além das quais se desconfigura todo e qualquer sentido. Sobretudo, não pode se perguntar de modo algum – sob pena de berrar de dor – o que existe para além desses limites.

E todavia, nenhum indivíduo que tenha uma vez chegado lá, consegue erradicar de si, o desejo de lá retornar, mesmo sob o risco de enlouquecer.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Acalanto para Syrta.

Compus esta peça em 2002, por ocasião da morte de minha amiga pessoal, a produtora Syrta da Silveira. Continua inédita, mas acabo de publicar uma versão digital, produzida com soundfonts não profissionais, mas cujo som sugere – ainda que de longe –  a do quarteto de flautas doces. Só para lembrar.


Acalanto para Syrta
(Borges de Garuva, 2002)




domingo, 29 de dezembro de 2013

Corredeira para meditar.

Aqui está um videozinho que produzi para me dar umas pausas de vez em quando. A imagem é de baixa qualidade – fiz com minha Sony DSC-H5 e o maltratei um pouquinho na edição e na compactação. Mas, se você semicerrar os olhos e prestar atenção à algazarra dos grilos, das andorinhas e dos outros pássaros, com certeza vai ter a impressão de estar à beira d'água Bom proveito.

sábado, 16 de novembro de 2013

Os minutos.

video
Em 2004, pedi em prestada uma câmera VHS do produor Luciano Cavicchiolli, meu amigo, para fazer uns estudos em Figueira do Pontal, onde passava o verão. Uma das brincadeiras que fiz então foi a gravação de alguns textos meus, com a ajuda de Euson Cardoso de Melo na câmera . As imagens envelheceram nas fitas e foram, há cerca de 3 anos, digitalizadas. Mas continuaram nas gavetas. Agora, fiz esta ediçãozinha para ver no que dava e deu nisto. Gostei da experiência e vou partir para outras, mais cuidadosas, começando por refazer "Os minutos" em HD.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

TEMPO DE POUSIO ENQUANTO TENTO TOMAR PÉ NO MAR EM FÚRIA DO MEU PRIMEIRO ROMANCE

sábado, 27 de abril de 2013

Impressões sobre o cante alentejano

[Texto ainda em construção. Será apresentado num evento literário em Alcáçovas, na semana que vem.]


De passagem pelo Alentejo, vivi em Évora, nas comemorações da Revolução dos Cravos, uma emoção memorável: shows, fogos de artifício à meia-noite, banda, a enorme praça lotadíssima e a multidão toda muita gente portando cravos vermelhos entoando "Grândola, vila morena", o hino que o povo cantou na noite de 24 para 25 de abril de 1974, quando a ditadura de Salazar foi derrubada sem necessidade de disparar um tiro.
 
O próprio hino parece um cante alentejano. Depois que o evento terminou, já após a uma da manhã, muita gente permanecia na praça em animados círculos de conversa e... do meio daquela gente toda, ergueu-se a voz de um coro entoando cantes, vários, lindos, emocionados. O cante lembra um certo tipo de música brasileira tradicional que já traz na melodia uma espécie de tristeza que nos deixa enternecidos... a velha moda de viola, por exemplo, mas entoada em coro, com um solo puxando a melodia.
Eu trazia, de leituras e de vídeos capturados na internet, uma ideia vaga do cante e de sua prática como uma tradição alentejana, mas isso estava muito distante da viva emoção que senti ouvindo os cantes ao vivo e espontaneamente entoados nessa madrugada na praça do Giraldo. A cada nova toada, mais crescia o número de participantes e mais poderoso ficava o cante.
Por isso, decidi estender por mais uns dias minha passagem pelo Alentejo e na tarde do dia 25 vim a Alcáçovas assistir ao Cante da Terra, oportunidade em que pude ouvir quatro dos grupos tradicionais de Alcáçovas e de Viana do Alentejo. O Cante da Terra aconteceu ao fim da tarde do 25 de abril no Jardim Público, simultâneo a evento semelhante e paralelo em Viana. Aqui e lá, da mesma forma, com os convidados se apresentando por último , cantaram dois corais tradicionais de Alcáçovas e dois de Viana.
Infelizmente, como vejo ocorrer no Brasil e, por notícias, em outros locais do mundo, parece haver uma cisão no cultivo das tradições entre as gerações mais jovens e as veteranas, o que se refletiu no público que compareceu ao evento: os próprios cantadores e alguns dos mais velhos do lugar. Mesmo assim, era bastante gente para uma população tão pequena como a desta freguesia do distrito de Évora.

A tarde era apetecível: sol, brisa tranquila, pássaros alegres (há por ali uma velha palmeira sobre a qual uma cegonha construiu seu ninho); todos pareciam felizes afinal era feriado e a temperatura estava gostosamente amena em relação ao frio pesado que faz no inverno e ao tórrido calor do verão alentejano. (Soube hoje que o verde e a pujância dos campos floridos são efêmeros: duram menos de um mês, normalmente, período que vem sendo ampliado após a construção, a 50km daqui, do segundo maior lago artificial da Europa a barragem de Alqueva, no rio Guadiana).

Depois de gravar todas as apresentações para estudo futuro das letras e das melodias e também para dar veracidade aos tipos humanos do romance que estou a escrever (e que me trouxe para cá) e cujo personagem central nasce em Alcáçovas no ano de 1470 fui ao Quiosque da Praça, onde alguns rapazes brincavam com o cante, em versões que pareciam escandalizar a proprietária do lugar.

Um dos puxadores era um trabalhador do campo que eu já havia encontrado na véspera, numa tasca da freguesia, e que, por feliz coincidência, chama-se Pedro, como o meu personagem, cuja construção ficou definitivamente contagiada pelo perfil deste tosquiador de ovelhas do século XXI. As corruptelas que fazia do cante alentejano (usando como referência, entre outras, o Grândola, vila morena) ou as brincadeiras com textos infantis ou mais ou menos malcriados da música popular, mais a imitação dos trejeitos próprios do modo de entoar o cante me fizeram rir e contemplar brevemente a realidade e as potencialidades desse patrimônio musical do Alentejo) também na sua espontaneidade tão aberta à irreverência, como toda boa tradição da música popular.

Enfim, a impressão geral que me ficou do cante até o momento é dessa combinação deliciosa entre a força de suas raízes tradicionais plantadas na Idade Média e sua conexão profunda com a terra alentejana viva de hoje, com a vida no campo e na casa e com as mazelas que o país está vivendo, vítima dessa estúpida roleta universal que é o mercado financeiro, e do qual, como o Brasil anterior ao governo popular iniciado com Lula em 2003, parece não conseguir escapar. Neste sentido, o cante é revolucionário, é sério, é triste mas de uma tristeza que beira o bom espírito de liberdade da anarquia como bandeira do bem-viver coletivo e musicalmente rico, capaz de abrigar e promover tanto o gosto pelo canto coletivo quanto servir de campo de expressão para saborosíssimas particularidades vocais e para a capacidade de improviso dos indivíduos. O cante é, assim, uma forma popular de arte uma tradição musical que sobreviveu às tentativas de filtragem e achatamento desde os anos 30-40 da ditadura de Salazar que, como nos vinte anos da ditadura brasileira, não queria ouvir os lamentos do povo, porque lhe interessava mostrar ao próprio país e ao mundo uma realidade pujante e feliz, que, no entanto, era falsa.

O cante é, enfim, uma expressão do patrimônio cultural em que o povo do Alentejo, ao mesmo tempo, conta cantando suas dificuldades e sofrimentos de todo dia e pede respeitosamente solução, mas não de forma resignada e sim como uma advertência que diz: estamos aqui a viver isto e pedimos ajuda, mas se ela não viver, em algum momento encontraremos nossa própria solução.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Um poema.

Finisterra

(Borges de Garuva, 2013)


Enfim,
aqui estou
no limiar do sentido,
face a face com a infinitude.

Vasto oceano de silêncio
se estende à minha frente,
lisa superfície contínua e sem horizontes.
Arrio as velas do meu barco.
Deixo-o deslizar mansinho
ao sabor do impulso da viagem
até que fiquem para trás
a última estrela,
a última frágil memória,
a última palavra...

Estou aqui e vejo.
Vejo com gratidão como chegou ao termo
a minha longa jornada.
Percebo, alegremente resignado, os meus limites:
sei que não posso aventurar-me além;
basta-me saber que faço parte da eternidade.

Penetro devagar a infinita e cintilante noite.
Banha-me a absoluta harmonia
de um acorde perene e inebriante
– baixo profundo sobre o qual repousam
trêmulas e delicadas cordas –
eco sutil da música longínqua das esferas.

Não tenho medo.
É meu porto seguro esta última praia do real.
Se me aventuro agora ao largo é porque sei
que em breve tornarei a pôr os pés
no solo confortável do meu ser.

Gozo esta ventura de ir derivando assim,
sem medo, o peito aberto,
os braços como asas flutuando nesta paz,
o olhar cheio de luz,
singrando este oceano de indizível beleza.

Transbordo de amor e gratidão:
alguns de meus iguais aqui também chegaram
e luminosos contemplam o limiar da plenitude.
Estamos seguros, sereníssimos,
neste remoto rincão do continente da vida
de onde podemos provar o gosto do silêncio absoluto,
da absoluta ausência de sentido.

Ah, mar Oceano!
Noite profunda em que mergulha meu ser.
Bruma obscura em que se calam todas as perguntas.
Fulgurante escuridão em que se dissipa toda angústia.

Em breve, voltaremos.
Outros de nós já regressaram e dançam,
reencantados com a vida.
Dançam embriagados pela alegria generosa
de haver estado aqui,
nos últimos limites do espaço e do tempo,
alcançado a última fronteira da cultura,
de onde cada qual pode a seu modo vislumbrar de leve
o Todo, o Deus, o Nada.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Uma crônica do meu baú

A formiguinha

Borges de Garuva

É a percepção da morte que nos vai tornando absolutos. Cada dia que passa é um passo a mais para a plenitude, se por plenitude considerarmos a dispersão final, no Reino Anárquico da Natureza, disto que agora somos. Por isso, exijo ser cremado quando se desfizer a aparente unidade que sou. Imagino-me zarpando para o firmamento convertido em partículas de fumaça, e depois espargido pelas chuvas sobre os campos agrícolas e sobre as últimas florestas, ou levado pelo vento para os jardins e os rios, para o mar e as montanhas da minha terra. Por outro lado, já que é tudo tão inexorável - é fundamental que cultivemos em nós uma ampla dose de paciência para com os frágeis componentes do organismo que somos. Cada um deles - cabeça, tronco, membros e suas partes constituintes - é também um coisa viva que se deteriora, ameaçada de súbita extinção, sensível como uma pluma no vento do tempo, transitória como o orgasmo cuja essência é precisamente se perder.

Talvez nem fosse inteiramente próprio, mas era sobre isto que conversávamos, sentados a uma das mesas da Confeitaria Colonial, junto às breves cortinas de rendas claras movidas agora pela brisa da manhã, um diante do outro - ele, meu amigo, e eu, seu idem.

Ele é um moço bonito, saudável, de olhar inquieto e riso franco. Podia ser meu filho, mas tive a sorte de não me tornar seu pai, embora me preocupe seu destino. Poderia ser meu aluno, mas já passou da fase escolar, embora se dirija a mim como se eu fosse professor.

Enquanto rolava nosso papo, e brincávamos nesse bom jogo de vida que é sentar-nos com alguém para comer e conversar, observei no terreno vermelho da toalha, ultrapassando a cantoneira bordada próxima do cotovelo direito de meu camarada, um serzinho móvel que se dirigia em linha reta para o centro da mesa.

Tratava-se, pelas evidências, de uma minúscula formiga-açucareira, voraz devoradora de doces. Passeava sozinha, talvez porque fosse domingo em Joinville: quem se postasse no terraço do Deville veria nossa bela cidade bordada de jardins, exalando saúde na paz das ruas ao longo das quais uns raros transeuntes solitários - minúsculos, vistos aqui de cima - perambulavam com esse prazer peculiar que sentimos quando caminhamos ao léu nas manhãs dos feriados. Fora assim, vagabundeando tranqüilos, que acabáramos na confeitaria.

Seguia a formiguinha pelas ondulações do linho, ora avançando, ora retrocedendo, voltando-se para cá ou para lá, sempre agitando no ar as duas anteninhas quase invisíveis, cujos movimentos lembravam os gestos que os cegos recentes fazem com os braços ou a bengala - tenteios no espaço à cata de vestígios que lhes indiquem as rotas. Para a formiguinha, um cheiro, de certo. Aonde ia dar sua pesquisa?

- O açucareiro? - murmurei.

O açucareiro estava perto de meu cotovelo esquerdo, precisamente na diagonal que o pequeno himenóptero vinha percorrendo.

A gente ficou ali, à espreita do que viria a acontecer, enquanto sobre a mesa jaziam as apetitosas iguarias - leite, café, pães, musses, manteiga, queijo, presunto, salames, cuca, bolo, torta de requeijão, além de nossas duas xícaras de café com leite, antes fumegantes e agora duas superfícies imóveis recobertas pela nata que tivera tempo de vir depositar-se à tona.

De repente e sem explicação, a formiguinha mudou de rumo. Não levantou uma bandeirinha, não apitou, não deu sinal nem nada. Apenas dirigiu-se para o prato de requeijão e por ali mesmo começou o trabalho de minerar seus néctares. E assim, abandonando o artrópode às suas escavações, a gente retomou o fio do nosso assunto, voltando, como se diz, à vaca fria.

Meu amigo estava naquele estágio da vida em que, conforme lhes seja propício, os adultos nos consideram crianças quando já queremos ser adultos, e adultos quando ainda sonhamos ser crianças. Dos conflitos que nascem neste território sem definições da primeira juventude, o mais terrível é aquele que nos põe diante da necessidade de adotarmos ou rejeitarmos para sempre os modelos explicatórios do universo e da vida que a educação simplorizante (familiar, eclesial, escolar) enterra no nosso crânio.

A comodidade depende disto: de adotarmos, voluntariamente ou por imposição, um sistema de referência e conduzirmos nossa vida segundo suas definições. Mas, a felicidade não tem precisamente a ver com a comodidade. Quando questionamos os modelos recebidos do passado, quando assumimos a rebeldia como um modo mais saudável de existir - negando a inexorabilidade do fim -, quando cada atitude começa a exigir de nós alguma reflexão, então nossa consciência passa a conhecer uma espécie de angústia. Esta angústia não é destrutiva: antes, é o alimento da poesia. De resolvê-la incansavelmente, todos os dias, é que nasce o sentido de viver.

Ele pigarreou. Parecia querer perguntar-me algo importante. Segurou a faca com a lâmina ao contrário, e com o cabo de madeira foi tecendo cabisbaixo um arabesco invisível em torno de seu pires.

De repente interrompeu o desenho, elevou para mim apenas os grandes olhos luminosos e assim deteve-se um instante, como se houvesse congelado.

- Afinal – me perguntou – tu achas que a vida tem sentido?

E amassou inadvertidamente com o cabo da faca a formiguinha.