terça-feira, 20 de maio de 2014

O bicho que roeu meu Shakespeare.

Um cupim tentou aproveitar minha edição das obras completas de Shakespeare, publicada pela Oxford University Press em papel India com ilustrações (Londres, 1955).

Enfiou-se pela capa dura e, como sugere o formato irregular do buraco de entrada, deve ter tido algum trabalho para perfurar a percalina, pois já no cartão, no espelho e na folha de rosto, o furinho é perfeitamente circular.

Depois, atravessou persistente 440 das 1.165 páginas do livro, até alcançar a cena inicial da segunda parte de "King Henry the IV", onde deparou com uma lâmina em que se estampa a fotografia de John Vickers da cena IV do segundo ato da mesma peça, na montagem de 1945 da Old Vic Company. Ali, o animalzinho cansou de Shakespeare ou foi sumariamente defenestrado por minha amiga Eneida, que em 2012 deu uma geral na minha biblioteca para livrá-la das traças e dos cupins.

Felizmente, além do terceiro olho que cavou na testa de Rosalinda, na lâmina de "As you like it", percorrendo as páginas perfuradas pelo invasor faminto, constatei que em nenhuma delas o texto foi drasticamente danificado. O cupim que roeu meu Shakespeare era, afinal, um leitor faminto e respeitoso.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

A nossa Copa.

Ocorreu-me ontem, nas conversas de botequim, uma lembrança que vem a calhar.

Em todas as copas, de 1978 a 2002, fui um "anticopeiro" impertinente. Considerava alienante a unanimidade em torno do evento. Com raras exceções nos tempos de Colégio Bom Jesus (em que meus alunos me arrastavam para a festa), durante os jogos do Brasil eu saía caminhando no silêncio das ruas em vez de assistir às partidas pela televisão como praticamente TODOS faziam. As ruas ficavam lindamente desertas. A cidade mudava de cara. Do interior das casas vinham os ruídos da torcida: pelos sons, eu quase via a bola brasileira chegando ou se afastando do gol. Ouvi muito "Filho-da-puta!" gritado coletivamente por trás das janelas enfeitadas de verde amarelo. Eu me sentia sozinho como aquele Charlton Heston das sequências iniciais de "A última esperança de Terra" (1971), mas era bom.

A indignação começou mesmo na Copa de 1978 (quando o goleiro Quiroga do Peru, deixou passar 6 gols argentinos para eliminar da final o Brasil, que acabou como "campeão moral"). Em 1977, o insano general Ernesto Geisel havia lançado o seu Pacote de Abril para assegurar a manutenção da maioria no governo (esse tipo de coisa era própria não só da ditadura, como do governo neoliberal "democrático" de Fernando Henrique Cardoso, que promoveu alterações na Constituição a fim de assegurar um segundo mandato). O país estava realmente uma merda. O desemprego era grande e a rotatividade, maior ainda: os empresários festejavam, porque podiam renovar seus quadros de funcionários pagando cada vez menos pros trabalhadores (eu estava na Fundição Tupy e via isto acontecer). Abandonadas à própria sorte, as famílias agricultoras vendiam a preço de banana as suas terras para os grandes fazendeiros e vinham penar na cidade. Eu via isso. Convivi com isso. Em meio a isso, nós, que éramos contra a ditadura, queríamos discutir política... e o povo queria futebol!

Os anos passaram, conseguimos derrubar a ditadura (por sua própria incompetência e por nosso desejo de democracia) e o futebol permaneceu como objeto generalizado de culto pela maior parte dos brasileiros. Desde 1958, o sonho nacional de uma copa no Brasil (reafirmado por incontáveis pessoas ao longo dos meus últimos 50 anos) está prestes a realizar-se.

Compreendo a irritação contra a Copa da parte daqueles que querem continuar discutindo a realidade brasileira porque a querem melhor. Entendo que os movimentos sociais e os movimentos de esquerda manifestem sua indignação diante dos grandes investimentos no setor. Mas, é preciso recorrer aos dados, é preciso entender que turismo e lazer fazem parte do conjunto de campos de que um país precisa dar conta – o primeiro, porque assegura a circulação e a entrada de divisas; o segundo, porque promove o bem-estar e a saúde, reduzindo os custos do SUS. Além disso, os investimentos na Copa compreendem também investimentos na infra-estrutura (comunicação, estradas, portos, aeroportos), na circulação de bens, na formação de recursos humanos, na geração de empregos etc.

Entretanto, é preciso que as manifestações de esquerda não se confundam com as de direita. Atualmente, o movimento maior anti-copa não é de esquerda; é de direita. São as falanges neoliberais querendo retomar o poder que perderam em 2003. Para isso, precisam a qualquer custo e irresponsavelmente, desmoralizar o governo atual e impedir que a Copa ocorra competentemente, de modo a obterem nas eleições o voto da população frustrada. Mas, com isso, emporcalham impiedosamente a imagem do Brasil no mundo. Arrotam agora, contra o governo popular, o que deviam ter arrotado contra seus próprios governos incompetentes, na ditadura e depois. O Brasil e os brasileiros, entretanto, são muito melhores do que os neoliberais pensam.

O fato de que a gestão desse evento funcione segundo um modelo que essas próprias falanges querem adotar para o Brasil não neutraliza sua utilidade para nós. Não está em poder do Brasil consertar a FIFA e libertá-la de sua ganância, de suas deformações políticas ou racistas e de suas conexões mafiosas. Mas, o Brasil pode, sim, aproveitar esse evento para consertar um pouquinho a sua história presente. É isto, felizmente, que o governo – apesar de sua timidez e de seus senões – está fazendo: tornar a Copa um evento importante não para a FIFA, mas para o Brasil.

domingo, 4 de maio de 2014

A vertigem da infinitude.

Ontem, após o café da manhã, ocorreu-me a ideia de brincar um pouquinho com o tema da infinitude, por causa de uma dorzinha aguda que estava sentindo num dos dedos do pé, como se houvesse uma agulha dentro do calçado que o estivesse picando. Tirei o calçado e nada havia ali que eu pudesse extrair para aliviar a dor.

Fonte: http://uvs-model.com/UVS%20on%20unisonal%20evolution%20mechanism.htmAo caminhar para o carro e depois, ao andar com o Coisinha-de-Nada, meu cachorrio, a ligação entre a minha mente que sentia e o ponto exato do dedo que doía, pareceu-me de repente vertiginosamente enorme. Essas duas áreas do meu corpo, que normalmente sinto tão modesto em dimensões, pareciam separadas por trilhões de células organizadas em tecidos e nervos quilométricos, que realizavam essa transmissão e possibilitavam a consciência da picada impertinente.

O tema foi me ocupando e desdobrando-se em possibilidades, até conduzir-me a uma região que me parecia, novamente, os limites da totalidade – aqueles mesmos que pensei atingir num dos rituais com ayahuasca, de que participei em março do ano passado. Tentei forçar um pouco a barra e mergulhei na dor da vertigem, no desamparo de não poder meter na cabeça a porra da infinitude.

E então, o movimento seguinte: a  incontornável sensação de que não há mesmo nenhuma outra saída que não a mera resignação à pequena vida que vivemos – nós e as formiguinhas que esmaguei pela manhã ao limpar a mesa do café. Parece que o ser humano se meteu num labirinto que só poderia ter evitado lá atrás: o da consciência de si. Para sua desgraça, essa consciência não pode ultrapassar certas paragens além das quais se desconfigura todo e qualquer sentido. Sobretudo, não pode se perguntar de modo algum – sob pena de berrar de dor – o que existe para além desses limites.

E todavia, nenhum indivíduo que tenha uma vez chegado lá, consegue erradicar de si, o desejo de lá retornar, mesmo sob o risco de enlouquecer.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Acalanto para Syrta.

Compus esta peça em 2002, por ocasião da morte de minha amiga pessoal, a produtora Syrta da Silveira. Continua inédita, mas acabo de publicar uma versão digital, produzida com soundfonts não profissionais, mas cujo som sugere – ainda que de longe –  a do quarteto de flautas doces. Só para lembrar.


Acalanto para Syrta
(Borges de Garuva, 2002)




domingo, 29 de dezembro de 2013

Corredeira para meditar.

Aqui está um videozinho que produzi para me dar umas pausas de vez em quando. A imagem é de baixa qualidade – fiz com minha Sony DSC-H5 e o maltratei um pouquinho na edição e na compactação. Mas, se você semicerrar os olhos e prestar atenção à algazarra dos grilos, das andorinhas e dos outros pássaros, com certeza vai ter a impressão de estar à beira d'água Bom proveito.

sábado, 16 de novembro de 2013

Os minutos.

video
Em 2004, pedi em prestada uma câmera VHS do produor Luciano Cavicchiolli, meu amigo, para fazer uns estudos em Figueira do Pontal, onde passava o verão. Uma das brincadeiras que fiz então foi a gravação de alguns textos meus, com a ajuda de Euson Cardoso de Melo na câmera . As imagens envelheceram nas fitas e foram, há cerca de 3 anos, digitalizadas. Mas continuaram nas gavetas. Agora, fiz esta ediçãozinha para ver no que dava e deu nisto. Gostei da experiência e vou partir para outras, mais cuidadosas, começando por refazer "Os minutos" em HD.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

TEMPO DE POUSIO ENQUANTO TENTO TOMAR PÉ NO MAR EM FÚRIA DO MEU PRIMEIRO ROMANCE

sábado, 27 de abril de 2013

Impressões sobre o cante alentejano

[Texto ainda em construção. Será apresentado num evento literário em Alcáçovas, na semana que vem.]


De passagem pelo Alentejo, vivi em Évora, nas comemorações da Revolução dos Cravos, uma emoção memorável: shows, fogos de artifício à meia-noite, banda, a enorme praça lotadíssima e a multidão toda muita gente portando cravos vermelhos entoando "Grândola, vila morena", o hino que o povo cantou na noite de 24 para 25 de abril de 1974, quando a ditadura de Salazar foi derrubada sem necessidade de disparar um tiro.
 
O próprio hino parece um cante alentejano. Depois que o evento terminou, já após a uma da manhã, muita gente permanecia na praça em animados círculos de conversa e... do meio daquela gente toda, ergueu-se a voz de um coro entoando cantes, vários, lindos, emocionados. O cante lembra um certo tipo de música brasileira tradicional que já traz na melodia uma espécie de tristeza que nos deixa enternecidos... a velha moda de viola, por exemplo, mas entoada em coro, com um solo puxando a melodia.
Eu trazia, de leituras e de vídeos capturados na internet, uma ideia vaga do cante e de sua prática como uma tradição alentejana, mas isso estava muito distante da viva emoção que senti ouvindo os cantes ao vivo e espontaneamente entoados nessa madrugada na praça do Giraldo. A cada nova toada, mais crescia o número de participantes e mais poderoso ficava o cante.
Por isso, decidi estender por mais uns dias minha passagem pelo Alentejo e na tarde do dia 25 vim a Alcáçovas assistir ao Cante da Terra, oportunidade em que pude ouvir quatro dos grupos tradicionais de Alcáçovas e de Viana do Alentejo. O Cante da Terra aconteceu ao fim da tarde do 25 de abril no Jardim Público, simultâneo a evento semelhante e paralelo em Viana. Aqui e lá, da mesma forma, com os convidados se apresentando por último , cantaram dois corais tradicionais de Alcáçovas e dois de Viana.
Infelizmente, como vejo ocorrer no Brasil e, por notícias, em outros locais do mundo, parece haver uma cisão no cultivo das tradições entre as gerações mais jovens e as veteranas, o que se refletiu no público que compareceu ao evento: os próprios cantadores e alguns dos mais velhos do lugar. Mesmo assim, era bastante gente para uma população tão pequena como a desta freguesia do distrito de Évora.

A tarde era apetecível: sol, brisa tranquila, pássaros alegres (há por ali uma velha palmeira sobre a qual uma cegonha construiu seu ninho); todos pareciam felizes afinal era feriado e a temperatura estava gostosamente amena em relação ao frio pesado que faz no inverno e ao tórrido calor do verão alentejano. (Soube hoje que o verde e a pujância dos campos floridos são efêmeros: duram menos de um mês, normalmente, período que vem sendo ampliado após a construção, a 50km daqui, do segundo maior lago artificial da Europa a barragem de Alqueva, no rio Guadiana).

Depois de gravar todas as apresentações para estudo futuro das letras e das melodias e também para dar veracidade aos tipos humanos do romance que estou a escrever (e que me trouxe para cá) e cujo personagem central nasce em Alcáçovas no ano de 1470 fui ao Quiosque da Praça, onde alguns rapazes brincavam com o cante, em versões que pareciam escandalizar a proprietária do lugar.

Um dos puxadores era um trabalhador do campo que eu já havia encontrado na véspera, numa tasca da freguesia, e que, por feliz coincidência, chama-se Pedro, como o meu personagem, cuja construção ficou definitivamente contagiada pelo perfil deste tosquiador de ovelhas do século XXI. As corruptelas que fazia do cante alentejano (usando como referência, entre outras, o Grândola, vila morena) ou as brincadeiras com textos infantis ou mais ou menos malcriados da música popular, mais a imitação dos trejeitos próprios do modo de entoar o cante me fizeram rir e contemplar brevemente a realidade e as potencialidades desse patrimônio musical do Alentejo) também na sua espontaneidade tão aberta à irreverência, como toda boa tradição da música popular.

Enfim, a impressão geral que me ficou do cante até o momento é dessa combinação deliciosa entre a força de suas raízes tradicionais plantadas na Idade Média e sua conexão profunda com a terra alentejana viva de hoje, com a vida no campo e na casa e com as mazelas que o país está vivendo, vítima dessa estúpida roleta universal que é o mercado financeiro, e do qual, como o Brasil anterior ao governo popular iniciado com Lula em 2003, parece não conseguir escapar. Neste sentido, o cante é revolucionário, é sério, é triste mas de uma tristeza que beira o bom espírito de liberdade da anarquia como bandeira do bem-viver coletivo e musicalmente rico, capaz de abrigar e promover tanto o gosto pelo canto coletivo quanto servir de campo de expressão para saborosíssimas particularidades vocais e para a capacidade de improviso dos indivíduos. O cante é, assim, uma forma popular de arte uma tradição musical que sobreviveu às tentativas de filtragem e achatamento desde os anos 30-40 da ditadura de Salazar que, como nos vinte anos da ditadura brasileira, não queria ouvir os lamentos do povo, porque lhe interessava mostrar ao próprio país e ao mundo uma realidade pujante e feliz, que, no entanto, era falsa.

O cante é, enfim, uma expressão do patrimônio cultural em que o povo do Alentejo, ao mesmo tempo, conta cantando suas dificuldades e sofrimentos de todo dia e pede respeitosamente solução, mas não de forma resignada e sim como uma advertência que diz: estamos aqui a viver isto e pedimos ajuda, mas se ela não viver, em algum momento encontraremos nossa própria solução.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Um poema.

Finisterra

(Borges de Garuva, 2013)


Enfim,
aqui estou
no limiar do sentido,
face a face com a infinitude.

Vasto oceano de silêncio
se estende à minha frente,
lisa superfície contínua e sem horizontes.
Arrio as velas do meu barco.
Deixo-o deslizar mansinho
ao sabor do impulso da viagem
até que fiquem para trás
a última estrela,
a última frágil memória,
a última palavra...

Estou aqui e vejo.
Vejo com gratidão como chegou ao termo
a minha longa jornada.
Percebo, alegremente resignado, os meus limites:
sei que não posso aventurar-me além;
basta-me saber que faço parte da eternidade.

Penetro devagar a infinita e cintilante noite.
Banha-me a absoluta harmonia
de um acorde perene e inebriante
– baixo profundo sobre o qual repousam
trêmulas e delicadas cordas –
eco sutil da música longínqua das esferas.

Não tenho medo.
É meu porto seguro esta última praia do real.
Se me aventuro agora ao largo é porque sei
que em breve tornarei a pôr os pés
no solo confortável do meu ser.

Gozo esta ventura de ir derivando assim,
sem medo, o peito aberto,
os braços como asas flutuando nesta paz,
o olhar cheio de luz,
singrando este oceano de indizível beleza.

Transbordo de amor e gratidão:
alguns de meus iguais aqui também chegaram
e luminosos contemplam o limiar da plenitude.
Estamos seguros, sereníssimos,
neste remoto rincão do continente da vida
de onde podemos provar o gosto do silêncio absoluto,
da absoluta ausência de sentido.

Ah, mar Oceano!
Noite profunda em que mergulha meu ser.
Bruma obscura em que se calam todas as perguntas.
Fulgurante escuridão em que se dissipa toda angústia.

Em breve, voltaremos.
Outros de nós já regressaram e dançam,
reencantados com a vida.
Dançam embriagados pela alegria generosa
de haver estado aqui,
nos últimos limites do espaço e do tempo,
alcançado a última fronteira da cultura,
de onde cada qual pode a seu modo vislumbrar de leve
o Todo, o Deus, o Nada.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Uma crônica do meu baú

A formiguinha

Borges de Garuva

É a percepção da morte que nos vai tornando absolutos. Cada dia que passa é um passo a mais para a plenitude, se por plenitude considerarmos a dispersão final, no Reino Anárquico da Natureza, disto que agora somos. Por isso, exijo ser cremado quando se desfizer a aparente unidade que sou. Imagino-me zarpando para o firmamento convertido em partículas de fumaça, e depois espargido pelas chuvas sobre os campos agrícolas e sobre as últimas florestas, ou levado pelo vento para os jardins e os rios, para o mar e as montanhas da minha terra. Por outro lado, já que é tudo tão inexorável - é fundamental que cultivemos em nós uma ampla dose de paciência para com os frágeis componentes do organismo que somos. Cada um deles - cabeça, tronco, membros e suas partes constituintes - é também um coisa viva que se deteriora, ameaçada de súbita extinção, sensível como uma pluma no vento do tempo, transitória como o orgasmo cuja essência é precisamente se perder.

Talvez nem fosse inteiramente próprio, mas era sobre isto que conversávamos, sentados a uma das mesas da Confeitaria Colonial, junto às breves cortinas de rendas claras movidas agora pela brisa da manhã, um diante do outro - ele, meu amigo, e eu, seu idem.

Ele é um moço bonito, saudável, de olhar inquieto e riso franco. Podia ser meu filho, mas tive a sorte de não me tornar seu pai, embora me preocupe seu destino. Poderia ser meu aluno, mas já passou da fase escolar, embora se dirija a mim como se eu fosse professor.

Enquanto rolava nosso papo, e brincávamos nesse bom jogo de vida que é sentar-nos com alguém para comer e conversar, observei no terreno vermelho da toalha, ultrapassando a cantoneira bordada próxima do cotovelo direito de meu camarada, um serzinho móvel que se dirigia em linha reta para o centro da mesa.

Tratava-se, pelas evidências, de uma minúscula formiga-açucareira, voraz devoradora de doces. Passeava sozinha, talvez porque fosse domingo em Joinville: quem se postasse no terraço do Deville veria nossa bela cidade bordada de jardins, exalando saúde na paz das ruas ao longo das quais uns raros transeuntes solitários - minúsculos, vistos aqui de cima - perambulavam com esse prazer peculiar que sentimos quando caminhamos ao léu nas manhãs dos feriados. Fora assim, vagabundeando tranqüilos, que acabáramos na confeitaria.

Seguia a formiguinha pelas ondulações do linho, ora avançando, ora retrocedendo, voltando-se para cá ou para lá, sempre agitando no ar as duas anteninhas quase invisíveis, cujos movimentos lembravam os gestos que os cegos recentes fazem com os braços ou a bengala - tenteios no espaço à cata de vestígios que lhes indiquem as rotas. Para a formiguinha, um cheiro, de certo. Aonde ia dar sua pesquisa?

- O açucareiro? - murmurei.

O açucareiro estava perto de meu cotovelo esquerdo, precisamente na diagonal que o pequeno himenóptero vinha percorrendo.

A gente ficou ali, à espreita do que viria a acontecer, enquanto sobre a mesa jaziam as apetitosas iguarias - leite, café, pães, musses, manteiga, queijo, presunto, salames, cuca, bolo, torta de requeijão, além de nossas duas xícaras de café com leite, antes fumegantes e agora duas superfícies imóveis recobertas pela nata que tivera tempo de vir depositar-se à tona.

De repente e sem explicação, a formiguinha mudou de rumo. Não levantou uma bandeirinha, não apitou, não deu sinal nem nada. Apenas dirigiu-se para o prato de requeijão e por ali mesmo começou o trabalho de minerar seus néctares. E assim, abandonando o artrópode às suas escavações, a gente retomou o fio do nosso assunto, voltando, como se diz, à vaca fria.

Meu amigo estava naquele estágio da vida em que, conforme lhes seja propício, os adultos nos consideram crianças quando já queremos ser adultos, e adultos quando ainda sonhamos ser crianças. Dos conflitos que nascem neste território sem definições da primeira juventude, o mais terrível é aquele que nos põe diante da necessidade de adotarmos ou rejeitarmos para sempre os modelos explicatórios do universo e da vida que a educação simplorizante (familiar, eclesial, escolar) enterra no nosso crânio.

A comodidade depende disto: de adotarmos, voluntariamente ou por imposição, um sistema de referência e conduzirmos nossa vida segundo suas definições. Mas, a felicidade não tem precisamente a ver com a comodidade. Quando questionamos os modelos recebidos do passado, quando assumimos a rebeldia como um modo mais saudável de existir - negando a inexorabilidade do fim -, quando cada atitude começa a exigir de nós alguma reflexão, então nossa consciência passa a conhecer uma espécie de angústia. Esta angústia não é destrutiva: antes, é o alimento da poesia. De resolvê-la incansavelmente, todos os dias, é que nasce o sentido de viver.

Ele pigarreou. Parecia querer perguntar-me algo importante. Segurou a faca com a lâmina ao contrário, e com o cabo de madeira foi tecendo cabisbaixo um arabesco invisível em torno de seu pires.

De repente interrompeu o desenho, elevou para mim apenas os grandes olhos luminosos e assim deteve-se um instante, como se houvesse congelado.

- Afinal – me perguntou – tu achas que a vida tem sentido?

E amassou inadvertidamente com o cabo da faca a formiguinha.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Um conto meu, novinho em folha.

O cara que perdeu as asas

(Borges de Garuva)

Soube de um cara que, um dia, ao despertar, constatou que duas pequenas asas lhe haviam nascido sobre as omoplatas. Pior: em poucos minutos, notou também que elas cresciam a olhos vistos.

Irritado e incapaz de aparecer assim perante os chefes e os colegas de trabalho, decidiu procurar imediatamente uma solução, e se pôs, desesperado, a vasculhar na internet alguma substância própria para remoção de asas.

Reunindo depois os ingredientes requeridos, produziu uma pomada que, diligente e trabalhosamente, passou a aplicar várias vezes ao dia sobre os pedúnculos dos indesejados apêndices.

Certa manhã, constatando que as asas haviam caído, embrulhou-as num grande saco plástico, que despachou na coleta matinal do lixo urbano.

Então, lhe ocorreu que, nem por um único segundo, se dera ao trabalho de experimentar se as asas lhe poderiam ser úteis para voar! E, contemplando no céu azul a revoada tranquila dos urubus, pôs-se desconsolado a chorar, sentindo-se irremediavelmente mutilado.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Resposta a um de meus leitores

Desculpe não haver retornado, antes, professor. Recebi sua primeira mensagem num momento em que tento me virar com  problemas sérios de doença na família. Obrigado pelo comentário sobre o artigo "A educação mala", no jornal "A Notícia" (19/10/2012, p. 32). É gratificante saber que o meu trabalho foi útil à sua atividade  pedagógica.

Quanto à educação, tenho uma experiência de 23 anos em escola regular (fundamental, médio e superior) e, anteriormente, atuei durante 5 anos como professor de teatro na Casa da Cultura de Joinville. Meu contato com as novas gerações foi sempre desafiante para mim mesmo e, ao mesmo tempo, me deu a oportunidade de contribuir com algumas pitadinhas de ética e de estética que, hoje, alguns de meus alunos agradecem.

Sua reflexão desencadeou outra em mim, que me fez inclusive pôr em dúvida este esforço enorme (da RBS) por dar à educação uma ênfase que começa a me parecer deformada: todos os aspectos da vida humana e social são importantes. A educação é apenas um deles e embora seja ótimo que a RBS queira (pelo menos explicitamente) contribuir para melhorá-la, ainda mais importante seria se ela buscasse tornar-se uma empresa de comunicação eticamente mais exemplar do que pareceu, por exemplo, durante a campanha política recente e depois.

De modo geral, acho que somos todos filhos do nosso tempo. Mais do que aos professores, é à sociedade como um todo – pais, escola, meios de comunicação, as artes, os esportes etc. – que se devem atribuir as causas dos comportamentos que caracterizam cada época. Também às religiões (e suas trocentas igrejas e seitas) cabe uma enorme responsabilidade na deformação das novas gerações. Elas têm, de modo geral, prestado um grande desserviço à humanidade em todos os cantos da Terra. Aqui no Ocidente, com o aparecimento do Cristianismo e lá no Oriente, com a disseminação vertiginosa do Islã, os seres humanos têm sido submetidos a enormes tribulações por causa de verdadeiras bobagens consolidadas como dogmas e normas, que têm dificultado o avanço da boa convivência social e tem massacrado o livre pensamento onde quer que ele ouse brotar. De modo geral, professor, nosso sistema de educação foi moldado pela igreja que causou a morte de perto de 500.000 mulheres durante a Idade Média e de mais de 10 milhões de nativos americanos ao botarem os pés aqui no continente. Só recentemente, aos pouquinhos, vimos nos livrando dessa herança maldita.

Por isso, gosto muito da irreverência que nossa geração assumiu como um modo de vida, lá pelos anos 1960/70. Apesar de todo o esforço do meio em que nasci em me educar na marra para ser um defensor da moralidade mosaica, meus pais conseguiram preservar uma certa leveza na maneira como nos educaram. Lembro bem dos meus 17-18 anos, filho mais velho de uma família de mais 10 irmãos e irmãs. Usávamos cabelos longos, íamos a festas com os amigos, queríamos romper com nossas famílias etc. Mas, acabamos todos perfeitamente integrados e vivendo em harmonia com nossos pais até os últimos momentos da vida deles. Eu não tenho filhos, mas meus irmãos e irmãs me deram 25 sobrinhos e, estes, mais uns 8 ou 10 (perdi a conta) sobrinhos-netos. São ótimos! Também fazem festas enoooormes, querem levar a vida na flauta... mas acabam trabalhando mais do que nós próprios  trabalhamos na juventude, e têm uma vida saudável sob todos os aspectos. 

Quando nos encontramos nos eventos familiares, fica claríssima uma coisa: trabalhar e brincar são as duas atividades mais importantes da vida, porque dão sentido à existência. A educação, me parece, deveria ser a ponte entre um e outro desses dois âmbitos da vida social... mas, obviamente, as forças produtivas querem apenas que a educação forme trabalhadores (mais precisamente, escravos). No passado, com a ajuda das igrejas, isto era mais fácil. Hoje, com a circulação copiosa das informações, já está mais difícil domar a liberdade quando brota nos espíritos mais jovens e independentes (por isso a necessidade da assessoria dos meios de comunicação!).

Penso que o futuro humano, professor, não será, daqui a 200 ou 500 anos, muito diferente do que é hoje e do que foi há 200 ou 500 anos. Os seres humanos são os mesmos dos últimos 200.000 anos e o que vai mudando é o estilo de vida que caracteriza cada momento da História. 

Obrigado por me haver induzido a estes pensamentos – um alívio em meio à vertigem dos consultórios, exames, diagnósticos, remédios e preocupações. Hora destas esta mensagem também vira um artigo ;)

Abraço.

Borges de Garuva.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Un ateo de catecismo

Eis aqui um extrato de Confesiones de un ateo, belo texto de Roberto Castillo Sandoval, publicado no seu Noticias secretas - Crónicas y comentarios desde la Región y Archipiélago de las Antípodas, interessante blog chileno de política e cultura.


Soy un ateo de catecismo, de los que van derechito al infierno.

Una amiga monja que sabía mi secreto siempre andaba tratando de curarme de mi ateísmo. Una tarde me preguntó si alguna vez yo había creído en Dios. Me acordé entonces de mi Primera Comunión, a los ocho años. Gracias a mis lecturas, yo estaba como el trapito del cóctel molotov, listo para el fósforo divino. Tenía la cabeza empapada de leseras fantásticas sacadas de las novelas de Emilio Salgari y de Julio Verne. En el catecismo de preparación para la Eucaristía, había descubierto que algunos de los cuentos de la Biblia le hacían el peso a las aventuras del Tigre de la Malasia o el Capitán Nemo. Había excelentes mini-series de cautiverios, travesías por el desierto, arbustos-llamaradas con voz de trueno, ciudades incendiadas, inundaciones y océanos que se dividen, venganzas cabronas, amores clandestinos y harta sangre. Las Sagradas Escrituras me agarraron por el lado sensacionalista: “Mujer mirona se convierte en estatua de sal”, “Lluvia de sapos en Egipto”, “OVNI en la carretera de Damasco causa volcamiento”, “Nueva desgracia de Job”.

Y así, en medio de mi Primera Comunión, se alineó el sol de tal manera con el planeta Tierra, que un rayo fulgurante pasó por el ojo de ámbar de un vitral de la parroquia de San Miguel y fue a dar directamente sobre mi cabeza engominada. El golpe de electricidad divina casi me chamuscó la cintita blanca con letras doradas que me habían amarrado al brazo. Yo pasaba por un momento de angustia, debido a que tenía la hostia adherida al paladar y no lograba despegarla con la lengua. Tocar la hostia con los dedos era pecado mortal, aparte de poco digno. Cuando una arcada satánica estaba a punto de derrotar mi incipiente santidad, el impacto del rayo de sol soltó la oblea sacra. Lo que sentí al tragarla sólo lo puedo comparar con ese calorcito que se extiende esófago abajo después de un sorbo de ron macizo.


Para arejar o momento, leia o artigo completo.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

"(...) o esforço para a felicidade é quase desumano e precisa ser feito a cada segundo, em cada pensamento e cada gesto. Por isso é tão fácil desistir de ser feliz e apenas sobreviver."
(Valter Hugo Mãe)

segunda-feira, 12 de março de 2012

Sobre heranças e memórias...

Nossa herança nos foi deixada sem nenhum testamento. Hannah Arendt

Com essa epígrafe, Hannah Arendt inicia seu texto Entre o passado e o futuro (1972) sobre os legados que uma geração deixa a outra e que são guias imprescindíveis para que cada uma seja capaz de posicionar-se no presente como sujeito da História. Para tanto, segundo ela, é necessário que as gerações sejam capazes de nomear suas realizações, seus feitos, dar sentido a eles e, assim, poder ofertá-los àqueles que chegam ao mundo.


Do livro Cartografias do envelhecimento na contemporaneidade - Velhice e terceira idade, de Mariele Rodrigues Correa, p. 7

domingo, 19 de fevereiro de 2012

De Umberto Eco

Certa vez, Valentino Bompiani inventou como slogan editorial: "Um homem que lê vale por dois." Na verdade, vale por mil. É através da memória vegetal do livro que podemos recordar, junto com nossas brincadeiras de infância, também as de Proust, e entre nossos sonhos da adolescência os de Jim em busca da Ilha do Tesouro; extraímos lições não só dos nossos erros, mas também dos de Pinóquio, ou dos de Aníbal em Cápua; não suspiramos somente pelos nossos amores, mas também pelos da Angélica de Ariosto — ou, se formos mais modestos, pelos da Angélica dos Golon; assimilamos algo da sabedoria de Sólon, sentimos calafrios por certas noites de vento em Santa Helena, e nos repetimos, junto com a fábula que a vovó nos contou, aquela narrada por Sherazade.
(A memória vegetal e outros escritos sobre bibliofilia.
Rio, Record, 2010, p. 16.)

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Sobre "Cavalo de guerra".

Decepcionado após ver, ontem, "Cavalo de guerra". Minhas impressões aqui são apressadas e superficiais - a imagem geral que me restou da obra.

O filme já nasceu prontinho para a Sessão da Tarde - nem precisa envelhecer. E faltou açúcar na lata do Spielberg: com uma narrativa mais que melíflua, com personagens esquemáticos, sem consistência dramática, o diretor parece conter-se (por tédio de veterano?) em quase todos os aspectos que poderiam tornar o filme memorável. Os primeiros minutos até que se desenham como uma promessa... mas ficam nisto. No final, tudo assume uma coerência danada: heróis involuntários, animais que parecem gente, campos de guerra com jeito de parques de paintball, personagens alemães e franceses falando inglês (umas vezes com um sotaque inexplicável, mesmo no caso de Emilie, que é francesa)... tudo pontuado pela música de John Williams (enternecedora e empolgante, é claro), que lembra os grandes épicos de Enio Morricone e do próprio JW, contra uma paisagem estonteantemente linda, às vezes de tirar o fôlego. (Queria poder filmar com esse diretor de fotografia - Janusz Kaminski!)

Acho que a cena mais interessante - e que pode tornar-se antológica (justamente porque a sequencia é temperada com uma agradável dose de ironia) - é a fuga de Joey na madrugada e seu salvamento quando acaba na terra-de-ninguém.

Enfim, à guisa de arremate: quem quiser curtir o filme deve ir vê-lo sem expectativas. Acho que procurei nele mais do que tinha pra me dar; pensava em algo bonito, aventuroso e sério, como alguns outros do diretor... mas, não é o caso de "Cavalo de guerra" - é um Spielberg, sim, mas bem mediano e mesmo assim vai lavar nas bilheterias do mundo. Próprio da grande indústria.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Granizo em Joinville

Acabei de assistir a uma chuva de pedra – o que me trouxe a infância de volta. Ficamos ali, no limiar do boteco, impotentes, contemplando as pelotinhas brancas a atacar as latarias dos nossos carros. Não fotografei porque esqueci.