terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Carta de Charles Narloch a Gert Fischer (*)

Caro Gert,

Leio seus artigos há muito tempo, desde que cheguei nesta cidade, e respeito-o muito por sua dedicação e paixão à preservação ambiental, dentre outras ações importantes que você se dedica com afinco. Não tenho o privilégio que você tem de poder apresentar-me como “cidadão nascido e morador” desta terra e, mesmo que fosse, talvez não considerasse este fato relevante, diante do aspecto pluralista que - ouso afirmar - qualquer cidade democrática deveria considerar para pensar seu desenvolvimento e registrar sua história, feita por cidadãos natos e migrantes, sem qualquer hierarquia de importância.

Concordo em alguns aspectos com seu artigo sobre o tombamento de casas antigas, principalmente no tocante aos proprietários que têm nas mesmas sua moradia e, muitas vezes, único bem da família. Lamento por você não estar acompanhando mais de perto o trabalho que vem sendo realizado pela Fundação Cultural, no sentido de corrigir injustiças.

Uma das prioridades do governo Carlito Merss foi ouvir a sociedade quanto à política de preservação do patrimônio cultural. Durante todo o ano de 2009, dois projetos de lei foram cuidadosamente avaliados e revisados por mais de quinze instituições diferentes, reunidas numa comissão especialmente nomeada para este fim. Nas próximas semanas, tais projetos de lei serão reenviados à Câmara de Vereadores, após receberem o devido aval do Conselho da Cidade. Os projetos já haviam sido encaminhados à Câmara em 2007, na gestão do então vice-prefeito Rodrigo Bornholdt, mas foram retirados pela Prefeitura Municipal em 2008.

Entretanto, manifesto aqui minha tristeza e estranhamento diante das opiniões expressas em seu artigo, principalmente reconhecendo sua atuação incontestável como forte defensor e militante da preservação ambiental e como companheiro do partido que faço parte, o PDT. Considero suas afirmações - sobre o processo de inclusão de bens a serem protegidos - um tanto preconceituosas e desrespeitosas com inúmeras pessoas que, como você, têm importantes trabalhos realizados por e nesta cidade.

Talvez você não saiba, mas essa “rapaziada” ou “essa juventude que gosta de um baseado” (termos que você adotou em seu texto para referir-se aos membros da Comissão Municipal de Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Natural) são profissionais respeitados, das mais diversas áreas, representantes do poder público e da sociedade civil, alguns deles com a experiência e vivência da idade que, imagino, você considera ideal.

O curioso e paradoxal, pelo menos para este que lhe escreve, é que muitas vezes ouvi e continuo ouvindo, como referência a você e seu indiscutível trabalho pela preservação ambiental, exatamente as mesmas críticas que você faz, com os mesmos termos que você usa em seu artigo. Da mesma forma, sempre defendi sua atuação e discordei com os que assim se referem a sua pessoa e sua atuação. Talvez você tenha esquecido que algumas pessoas ainda consideram as leis de preservação ambiental - que tanto você quanto nós defendemos - como “arcaicas, injustas, insensíveis e babacas”, apenas para relembrar os termos que você usa em seu texto para se referir às leis de tombamento.

Imagino também que talvez você não saiba que os imóveis mais polêmicos quanto a sua necessidade de preservação - não apenas em Joinville, mas em todo o Brasil - não têm sido aqueles de propriedade de pessoas idosas que neles residem. A fúria contrária à preservação do patrimônio cultural vem geralmente do mercado imobiliário, do mercado da construção civil e, na maioria das vezes, de investidores que não dependem diretamente daqueles imóveis para sua sobrevivência. Os mesmos, portanto, que mais se irritam com as políticas de preservação ambiental.

Sobre a Rua das Palmeiras, que segundo você “impede a circulação de pessoas normais”, salientamos que há um projeto elaborado pelo IPPUJ, com o apoio da Fundação Cultural, que prevê a reabertura da mesma em toda sua extensão (como era na originalidade), bem como a requalificação da área, com recursos do Governo Federal. E quanto às casas preservadas que hoje estão abandonadas naquele local - inclusive as que sofreram com os incêndios recentes - é prudente esclarecer que as mesmas não são utilizadas como moradias de seus proprietários, de longa data.

Como diretor executivo da Fundação Cultural de Joinville, convido você e qualquer outro interessado a nos fazer uma visita para conhecer os projetos de lei que oferecerão uma série de benefícios aos proprietários de bens tombados (deduções e isenções de impostos e taxas, transferência do direito de construir, fundo municipal e mecenato). Nosso presidente, Silvestre Ferreira, e nossa gerente de patrimônio cultural, Elizabete Tamanini, certamente terão muito prazer em atendê-los.

Grande abraço,

Charles Narloch

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(*) Em resposta ao texto de Gert Fischer, Casas tombadas - um horror para os proprietários

Um comentário:

Amanda disse...

Oi Borges, primeira vez que visito teu blog. Gostei muito! Tomei conhecimento desta carta resposta do Charles por aqui. Valeu, bjinho. Amanda ;)