segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Dois poemas de Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

 

Extraídos de O guardador de rebanhos (1911-1912).




IX

Sou um guardador de rebanhos.


O rebanho é os meus pensamentos


E os meus pensamentos são todos sensações.


Penso com os olhos e com os ouvidos


E com as mãos e os pés


E com o nariz e a boca.



Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la


E com um fruto é saber-lhe o sentido.



Por isso quando num dia de calor


Me sinto triste de gozá-lo tanto.


E me deito ao comprido na erva,


E fecho os olhos quentes,


Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,


Sei a verdade e sou feliz.


 


XLIX

Meto-me para dentro, e fecho a janela.


Trazem o candeeiro e dão as boas noites,


E a minha voz contente dá as boas noites.


Oxalá a minha vida seja sempre isto:


O dia cheio de sol, ou suave de chuva,


Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo,


A tarde suave e os ranchos que passam


Fitados com interesse da janela,


O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,


E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,


Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,


Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito.


E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.


 

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